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A morte silenciosa dos rios do Cerrado

Confira o artigo do antropólogo Dr. Altair Sales Barbosa

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Publicado em 23 de julho de 2018 às 12:40 Compartilhar:

Por Altair Sales Barbosa*

De maneira geral ou bem específica, como é o caso dos cursos d’águas do oeste da Bahia, sul do Piauí, noroeste do Tocantins, Maranhão e norte de Minas, as águas do cerrado padecem de um mal semelhante à diabete escondida ou disfarçada, que, quando se manifesta, dificilmente o portador escapa com vida.

No caso da diabetes, a doença vai minando paulatinamente alguns órgãos vitais, terminando com a falência deles. A amputação de membros é apenas uma das manifestações, mas a doença ataca rins, coração e sistema nervoso.

A diabetes pode ser considerada uma doença crônica que tem como causa a falta de produção de insulina no organismo, que é um hormônio controlador da glicose nas correntes sanguíneas. Numa comparação rudimentar entre a diabetes e os rios do cerrado, a insulina que mantém o equilíbrio dos rios tem origem nos lençóis subterrâneos, que são fontes de águas armazenadas nas rochas porosas sedimentares. Ela, que ao longo de milhões de anos foi sendo depositada na região, como é o caso do arenito Urucuia em Minas, oeste da Bahia, noroeste do Tocantins e o arenito Poty do sul do Piauí e Maranhão. Quando a fonte de insulina é insuficiente, os cursos d’águas superficiais entram em desequilíbrio, que se manifesta de diversas formas. O desequilíbrio altera a dinâmica do rio, como se tivesse afetado o seu sistema nervoso, aumenta a turbidez da água, como se seus rins deixassem de funcionar, além do que, o veneno utilizado fica no solo e quando carreado para o leito do rio, afeta seu sistema vital, fazendo desaparecer grande parte de sua fauna. A ausência de água nos lençóis subterrâneos provoca a amputação de vários membros integrantes da bacia. Essa amputação inicia com a migração das nascentes até o desaparecimento total de muitos cursos d’água. Este é o início do fim e se conclui com a morte do rio e todo seu entorno, incluindo a desestruturação de comunidades humanas, através da desterritorialização.

Nunca compreendi a atitude de certos funcionários públicos, que utilizando de imagens de satélite argumentam que 40% ou 50% de cerrado ainda estão preservados. A imagem de satélite para esta finalidade, mostra apenas o dossel da vegetação arbórea restante, não mostra a vegetação que constitui os estratos inferiores do cerrado, incluindo a vegetação rasteira, constituída basicamente por gramíneas, com uma grande variedade de capins nativos e bambuzinhos, que na realidade exercem uma função ecológica vital para cerrado, pois é o tipo de vegetação que retém as águas das chuvas que lentamente vão abastecer os lençóis subterrâneos e formarem os aquíferosa insulina dos rios. Fico a indagar: a quem interessa esse tipo de informação descalçada de uma visão sistêmica do cerrado. Será que é utilizada para justificar mais ocupações intensivas ou reflete simplesmente falta de conhecimento?

Não entendo, também, ou talvez não quero entender, a visão obtusa de certos profissionais liberais, funcionários públicos ou free-lancers contratados para falarem que a vazão dos rios tenha diminuído em função de mudanças climáticas. Ora, todos nós que estudamos o rol das ciências da evolução, incluindo estratigrafia, climatologia, sedimentologia, sabemos que mudanças climáticas não ocorrem bruscamente, demandam centenas, às vezes milhares de anos para um novo padrão se estabelecer. O que pode acontecer é um período de estiagem mais prolongado, em decorrência de fatores naturais, tais como circulação marinha, que afeta a circulação atmosférica, resfriamento ou aquecimento das águas oceânicas, ação dos ventos solares, ou mesmo das correntes de convecção existentes no Manto da Terra. Porém, são fatores isolados e isoladamente não estabelecem padrões, a não ser que pendurem por um longuíssimo tempo.

Estudos de estratigrafia e sedimentologia, apoiados em diversas datações radiométricas, têm demonstrado que o padrão climático, com uma estação seca e outra chuvosa, opera nos chapadões centrais da América do Sul, área ocupada por cerrado desde pelo menos há 45 milhões de anos. Do final do Pleistoceno e início do Holoceno, quando populações humanas já ocupavam as grutas e cavernas existentes no cerrado, a estratigrafia mostra de forma clara essa oscilação, sendo a estação chuvosa demonstrada por camadas claras e a estação seca explicitada por sedimentos escuros. Este padrão é tão evidente, que não deixa dúvidas quanto à sua existência pretérita.

Portanto, o discurso da diminuição da vazão dos rios, associado a mudanças climáticas, não passa de uma falácia.

Não é preciso ser especialista para enxergar o prejuízo irreversível causado nas áreas do cerrado. Basta acessar uma imagem de satélite da região, para constatar grandes quadrículas nos interflúvios com monoculturas e grandes círculos desmarcados pela irrigação de pivôs. Os motores que fazem funcionar as máquinas da irrigação são tão possantes que necessitam de baterias de motores auxiliares, para colocá-los em operação. Quando este complexo começa a funcionar, os rios sofrem impactos gigantescos, alguns param totalmente do ponto de captação para baixo. Pensem, se fôssemos animais aquáticos o que faríamos? E, se fôssemos população ribeirinha, vivendo da produção familiar, ou se vivêssemos em alguma cidade ou povoado abaixo destes sistemas, qual seria a nossa reação?

Com relação aos animais, a resposta é fácil, mas com relação aos humanos a resposta é difícil, pois os humanos agem muitas vezes por interesses individuais, às vezes têm conhecimento dos problemas, porém, pode lhes faltar a consciência, elemento fundamental que o transforma em cidadão e o faz agir coletivamente, ou seja, em benefício da coletividade. Muitos sentem medo de lutar contra os lobos – os donos do capital -, mal sabendo que estes já lhe tiraram quase tudo: os ideais, o bem-estar, os amigos, falta apenas lhes tirarem a alma, se é que isto já não aconteceu. Seria bom neste momento indagar: em que aurora se escondem e como esperam o amanhecer?

Já escrevi centenas de artigos sobre o assunto, falando sobre as consequências da retirada da cobertura vegetal nativa, dos aquíferos, do futuro das águas. Também chamando atenção para as consequências que virão em breve, se este modelo predatório de relação com o território continuar.
Quase nada teve ressonância. Um ou outro idealista ou grupo de idealistas empenha a bandeira da construção de um futuro melhor, mas, diante de tanto poder, só encontra ao final da luta uma espécie de cadáver no calabouço. E o entusiasmo que o impulsiona, qual uma luz de candeia, vai apagando pouco a pouco.

Nunca entendi a voracidade da ganância dos grandes empresários rurais, muitos dos quais nem conhecem a região, mas suas ações aniquilam tudo. Não têm compromisso com o estado nem com as futuras gerações, seus filhos e netos. Por isso, menos ainda entendo a ação dos políticos e de alguns advogados nacionais, que com unhas e dentes protegem esses exterminadores e provocadores de entropias ambientais e sociais. Serão cegos? Mal intencionados? Onde foi que escondeu a luz dos olhos deles?

Não tenho respostas.

Também não sei aonde mora a aurora daqueles que um dia despertaram para a esperança.

Só uma certeza eu tenho: no silêncio acelerado do tempo, nossos rios vão morrendo.

*Altair Sales Barbosa é doutor em Antropologia e Geociencias
SmithsonianInstitution de Washington DC. USA
Pesquisador do CNPq.
Membro Titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás
Presidente do Instituto Altair Sales

Foto de Capa: Rio de Ondas, Barreiras/BA

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