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Brasil é país que mais mata defensores do meio ambiente: dos 207 mortos, 57 eram brasileiros

Maria do Socorro vive há nove anos com medo de ser morta por pistoleiros no Pará. “Minha casa tem mais de dez grades”.

Thom Pierce | Guardian | Global Witness | UN Environment
Publicado em 26 de julho de 2018 às 15:21 Compartilhar:

Via Buzzfeed News
Por Tatiana Farah

O Brasil é o país que mais matou defensores do meio ambiente no ano passado. De 207 ambientalistas assassinados em todo o mundo, 57 eram brasileiros. O levantamento foi feito pela ONG Global Witness, que aponta que 2017 foi o ano mais letal para os que defendem o meio ambiente e o direito à terra. A ONG apresenta levantamentos anuais desde 2002.

Segundo o relatório, lançado mundialmente nesta terça-feira (24), 80% desses brasileiros estavam defendendo a Amazônia. O Brasil é o país com o maior índice de mortalidade em 2017, entre 22 nações que registraram esse tipo de homicídio.

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Global Witness

“O Brasil sempre foi um dos piores países para os defensores do meio ambiente, mas a situação é pior hoje porque o governo tem debilitado muito as instituições que devem defender as comunidades e os indígenas. Quero dizer que instituições como o Incra e a Funai estão mais fracas do que antes”, disse ao BuzzFeed News o autor do relatório da Global Witness, Ben Leather.

A ONG registrou, entre essas 207 mortes, sete casos de massacre, em que mais de quatro defensores foram mortos ao mesmo tempo. No Brasil, foram três chacinas, resultando na morte de 25 pessoas.

“Em vez de tomar medidas para acabar com os ataques contra os defensores, o presidente Michel Temer e os legisladores brasileiros estão ativamente enfraquecendo as leis e as instituições destinadas a proteger os direitos à terra e os povos indígenas. Ao mesmo tempo, eles decidiram tornar mais fácil para as grandes empresas – aparentemente imperturbáveis pelo devastador custo humano e ambiental de suas atividades – intensificarem a exploração de ecossistemas frágeis”, diz o relatório.

De acordo com o levantamento, o setor que mais resultou em assassinatos foi o agronegócio, seguido da mineração e extrativismo (40 assassinatos). Em todo o mundo, 46 pessoas foram mortas por protestar contra a agricultura em larga escala. No Brasil, foram 12 vítimas.

O relatório destaca ainda que a impunidade e a corrupção são fatores que agravam a violência contra os agressores e que, na maioria dos casos em todo o mundo, inclusive no Brasil, os responsáveis pelos crimes escapam ilesos.

“No papel, o Brasil tem tudo para defender os defensores, mas, na prática, o governo brasileiro nunca implementou o programa de proteção aos defensores. Não só não implementa as medidas como debilita as instituições e protege as grandes corporações”, disse Leather.

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Thom Pierce | Guardian | Global Witness | UN Environment

A quilombola Maria do Socorro Silva, 54, é uma das seis mulheres de Barcarena (PA) ameaçadas de morte. Ela e suas companheiras, Cleia, Ludmila, Rosilda, Carleana e Dona Maria já tiveram suas casas invadidas em supostos assaltos, receberam telefonemas de ameaças e são constantemente vigiadas por pistoleiros.

Socorro conta que foi espancada. Em 2009, quando começaram as ameaças, a polícia chegou a trocar tiros com homens que vigiavam a entrada de sua casa, armados. Na ocasião, encontraram 25 cartuchos intactos de espingarda e outras duas cápsulas deflagradas. A história dessa ativista foi escolhida para ilustrar o capítulo do Brasil no relatório da Global Witness.

A luta de Socorro e suas companheiras, que comandam a Cainquiama, uma coalizão de comunidades da floresta, é contra o extrativismo predatório e a exploração do minério na Amazônia.

“Só sei que alguém quer me pegar. Eu não sei quem eles são, mas eles sabem quem sou eu, porque sou uma ativista. Já sofri quatro tentativas de homicídio”, contou a quilombola, em entrevista por telefone ao BuzzFeed News.

Um dos principais alvos das críticas dos quilombolas é a a empresa norueguesa Hydro Alunorte. Segundo a ativista, a empresa despejaria no rio local, o rio Pará, água contaminada por tratamento de bauxita.

“Minha casa hoje tem mais de dez grades até chegar no meu quarto. Eu sou uma quilombola que dorme embaixo da palha e tenho de viver assim, em casa de alvenaria e muitas grades. E, assim mesmo, eu não estou tranquila”.

Socorro disse que ela e suas companheiras já pediram ajuda do governo brasileiro para proteção, mas que nada foi feito.

O BuzzFeed News entrou em contato com a mineradora. A empresa enviou uma nota repudiando a denúncia de Maria do Socorro. Também enviou documentos de fiscalização, entre eles um emitido pelo governo do Estado do Pará, isentando a empresa de contaminação do rio.

“A Hydro repudia qualquer tipo de associação entre suas atividades e ações contra moradores e comunidades de Barcarena e condena firmemente qualquer ato de violência. A empresa reforça que sua relação com a comunidade é pautada pelos valores da companhia e pelo respeito à legislação de proteção aos direitos do cidadão e do meio ambiente”, diz a nota da empresa.

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