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Cientista campo-grandense vence prêmio alemão com pesquisa sobre o Cerrado

Jamil Anache, doutorando da USP-São Carlos, monitora a função hidrológica do Cerrado, e as consequência de substituir a vegetação nativa do bioma por pasto ou cana-de-açúcar

Jamil Alexandre Ayach Anache é vencedor do Green Talents 2018. (Foto: Green Talents)
Publicado em 17 de outubro de 2018 às 13:31 Compartilhar:

Via Galileu

Por Felipe Floresti

Jamil Alexandre Ayach Anache é vencedor do Green Talents 2018. (Foto: Green Talents)

Jamil Alexandre Ayach Anache é vencedor do Green Talents 2018. (Foto: Green Talents)

Eram 736 candidatos, espalhados por mais de cem países. Mas no final, deu Brasil. Natural de Campo Grande (MS), Jamil Alexandre Ayach Anache, de 29 anos, foi um dos 25 vencedores do Green Talents – “Fórum Internacional para Iniciativas de Alto Potencial em Desenvolvimento Sustentável”.

O prêmio, promovido pelo Ministério Federal da Educação e Pesquisa da Alemanha, seleciona alguns dos jovens pesquisadores mais promissores do mundo nas áreas de ciência e sustentabilidade. Assim, Jamil se tornou o 17º brasileiro a ganhar o prêmio desde sua criação, em 2009. A pesquisadora brasileira Kamila Pope, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi uma das escolhidas em 2017.

Foi principalmente a pesquisa para o doutorado em Engenharia Hidráulica e Saneamento pela Escola de Engenharia de São Carlos da USP que chamou a atenção dos jurados. Em seu trabalho, Jamil participa de um grupo que visa monitorar a função hidrológica do Cerrado, e a consequência de substituir a vegetação do bioma nativo por pasto para boi ou cana-de-açúcar.

“O Cerrado hoje em dia faz parte da fronteira de expansão agrícola no Brasil. É um bioma que está ameaçado em sua forma natural. Mais de 50% da área do Cerrado hoje é ocupado pela atividade agrícola”, afirma Anache.

“O pasto é muito comum no cerrado. O solo do bioma tem aptidão à pastagem, e com o etanol e o advento dos biocombustíveis, principalmente em São Paulo, essas áreas de pasto foram convertidas em cana-de-açúcar”, continuou. “Então a gente compara os usos para entender como que essa substituição pode impactar na ciclagem da água.”

A pesquisa ainda está em seu início. É difícil encontrar grandes áreas de Cerrado para fazer avaliações, mas os pesquisadores encontraram em Itirapina, cidade do interior de São Paulo próxima à São Carlos. Ali instalaram uma torre de fluxo, um trabalho que demorou 2,5 anos para ser concluído para entrar em funcionamento sem setembro deste ano.

A torre, que é uma das 25 instaladas pelo Brasil, tem a função de monitorar o fluxo de água, tanto pelas chuvas como pela evapotranspiração das plantas, a produção de CO2, e a taxa de recarga dos aquíferos. Os primeiros resultados, no entanto, já começam a aparecer.

Segundo Anache, um dos papéis do Cerrado é reduzir o escoamento superficial da água. Sua densidade e raízes profundas garantem que a infiltração da chuva seja mais lenta, ficando parcialmente retida em áreas do solo mais superficiais, o que possibilita o aproveitamento das plantas, que devolvem a água para a atmosfera por meio da evapotranspiração.

Nada disso, porém, acontece em uma região de pasto ou cana-de-açúcar. Com raízes menores e menor densidade da vegetação, a água escoa rapidamente em direção aos aquíferos. Dessa forma, há um aproveitamento menor da água pelas plantas e, consequentemente, uma interrupção no ciclo hidrológico por haver menor evapotranspiração. “Se tira o cerrado, com certeza tem alterações significativas no ciclo hidrológico”, conta Jamil.

O próximo passo das pesquisas é poder usar as informações do monitoramento para a criação de modelos matemáticos que para fazer previsões futuras considerando a variabilidade do clima. “Estão acontecendo constante mudanças, com chuvas se intensificando, períodos prolongados de seca, então com essa constante observação do Cerrado, vamos calibrar em modelos matemáticos para cenários futuros de clima.”

A partir desta segunda-feira, 15 de outubro, Jamil Anache estará por duas semanas reunido em Berlim com outros jovens cientistas de 24 países, além da elite de pesquisadores das áreas de ciência e sustentabilidade.

“É importante essa experiência internacional. Todo esse tipo de iniciativa que promove o intercâmbio de ciência é importante”, afirma Jamil. “Outra coisa são os contatos. Conhecer pessoas da área, de outros países e outras realidade. Vai ajudar meu meu desempenho profissional”.

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