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“O próprio homem faz a crise, porque ele não sabe zelar” – Antônio Bororo e suas sabedorias pantaneiras

“Sou homem, mas, as vezes, tenho vergonha de ser homem, porque estamos fazendo muita coisa que não se deve fazer, sem nenhuma responsabilidade.”

sr-antonio
Publicado em 16 de dezembro de 2016 às 16:50 Compartilhar:

Nathália Eberhardt Ziolkowski

 

Nesse mês de dezembro de 2016 o Projeto Clima Pantanal: Sistema de monitoramento, comunicação e alerta permanente para eventos climáticos extremas no Pantanal (Convênio 817381/2015, celebrado com o Ministério da Justiça) levou nossa equipe da Ecoa, formada por André Siqueira, Vanessa Spacki e eu a percorrer o Pantanal Mato-grossense, no estado de MT, quando contatamos 15 grupos e comunidades. Apesar de muito distintos, entendemos, convergem na relação de preservação do Pantanal e subsistência através de seus recursos.

Por esses caminhos encontramos muitas pessoas de referência cultural do modo de vida ribeirinho e pantaneiro. Uma delas é Antonio Soares, um índio Bororo de 77 anos que vive com a mulher, filhas, filho e neto/a em Acorizal, Pantanalzinho, nas proximidades do município de Barão de Melgaço, ao Sul de Mato Grosso.

Antônio é analfabeto, como 7,8% da população do estado, conforme dados da Pesquisa Nacional por amostra de Domicílio – PNAD 2013, porém afirma categoricamente:

“Sou analfabeto, mas isso não é sinônimo de burragem. Meu povo zanga de falar que sou analfabeto, mas não tive oportunidade de ir na escola. Eu leio, escrevo e faço conta que só eu entendo, mas ninguém me logra.”

O antigo morador da região conta que é do tempo em que a terra não tinha donos, as pessoas chegavam com sua família, se alojavam, plantavam para comer e quando sentiam necessidade, migravam para outro pedaço de terra, pois a terra não deixa ninguém passar fome. Mas o tempo fez com que isso mudasse e a fome fosse uma realidade cada vez mais cruel na vida do pequeno produtor. Foi no governo de Castelo Branco, lembra a filha Leidiane, que as terras passaram a ser documentadas. Era o primeiro ano da Ditadura Civil-Militar no Brasil quando se regulou os direitos e obrigações de acesso a terra, com a finalidade de implementar uma política agrícola. Nesse período Antonio soube que precisaria da documentação de suas terras e a conseguiu. Só por isso não foi despejado do local que há décadas preserva, lembra ele.

“Sou o maior preservador daqui. Só eu tenho mata, só eu tenho madeira plantada. Cuidar de tudo isso fica caro e o poder público em vez de ajudar, só retira. O governo diz que tem que preservar, mas, por debaixo dos panos, protege quem desmata. Isso acontece porque nossa região é muito rica, mas o povo é pobre demais.”

Antonio recorda com honraria ter sobrevivido a situações extremas. Quando jovem, para chegar a Cuiabá, andava 5km a pé, até Barão de Melgaço, onde pegava a canoa e seguia remando por mais 4 dias, com parada para descanso pelas prainhas do rio Cuiabá. O mesmo ritual seguia em seu retorno. Isso fez de Antonio um conhecedor e preservador do meio. Ele conversa com a natureza, sabe entender seus sinais e afirma:

“Aqui temos a meteorologia da lua, das estrelas, das formigas, da madeira, mas tem que saber observar a natureza para conhecer.”

            Ao final da conversa, Antonio presenteia a equipe da Ecoa com frutas retiradas de seu pomar, por onde caminha sempre descalço, como nos conta Maria, sua companheira, produtora de farinha de Babaçu. Suas frutas são livres de veneno e Antonio, por fim, declara:

“Sou homem, mas, as vezes, tenho vergonha de ser homem, porque estamos fazendo muita coisa que não se deve fazer, sem nenhuma responsabilidade.”

 

Nathália Eberhardt Ziolkowski

 

sr-antonio

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