Professora Edna Scremin é homenageada com nomenclatura de nova espécie de líquen

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Via UFMS

Sonhar ser cientista e ter seu nome na identificação de uma espécie não é a primeira reação dos estudantes quando aprendem Ciências nos bancos escolares. Mas é o que um dia imaginou a professora Edna Scremin-Dias, do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da UFMS, quando no sexto ano das séries fundamentais foi apresentada à taxonomia dos seres vivos.

E o que um dia foi almejado tornou-se recém-realizado com a homenagem recebida com a nomenclatura do líquen “Parmotrema screminiae (Parmeliaceae)”.

Essa nova espécie, com potente atividade antimicrobiana, encontrada em terras sul-mato-grossenses, foi coletada há quase 30 anos e apresentada à professora Neli Honda e a sua equipe do Instituto de Química pela professora de Botânica Edna Scremin-Dias, ainda quando lecionava no Centro Universitário de Aquidauana.

Parmotrema-screminiae_3

“Eu dava aulas em diversas disciplinas e havia iniciado uma especialização em Biologia Celular trabalhando com a parte interna das plantas. Na botânica criptogâmica, estudava líquen e outros organismos de menor porte e levava os alunos a uma área rochosa bem ampla, na região dos distritos de Piraputanga, Palmeiras e Camisão, em Aquidauana”, relata a professora Edna.

Foi no final da década de 80 que a professora Neli Honda entrou em contato para saber onde poderia fazer a coleta de espécies liquênicas. “Eu a levei nesses lugares que eram uma maravilha de líquens. Havia nas árvores, nas pedras, por todo lado. O grupo coletou muito e constantemente iam alunos de graduação e pós-graduação da UFMS para fazer estudos nessa região”.

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As espécies coletadas ao longo de vários anos foram identificadas, com os ensaios de quimiotaxonomia realizados no laboratório (LP2) do Instituto de Química. Das coletas realizadas até 1999 foram catalogadas cerca de 600 exsicatas.

Recentemente, a espécie catalogada como EQL 0001 (número da coleção de líquens do LP2) mostrou-se, na revisão taxonômica, ser uma espécie nova, agora denominada Parmotrema screminiae Spielmann & Canêz.

A apresentação da rica flora liquênica e o auxílio dado para o fortalecimento da liquenologia na Instituição levaram o Grupo de Estudos de Liquens (GEL) na UFMS a fazer a homenagem à professora Edna.

“Para o cientista, essa homenagem é impagável. Como escolhi a anatomia e a morfologia vegetal como área de trabalho, não imaginava ser possível ter meu nome em alguma espécie, como quando pensado na sexta série, já que esse é um trabalho de quem atua na taxonomia. Agora, quase no final da minha vida acadêmica, é uma surpresa emocionante”, afirma a botânica.

Atualmente lotada no Laboratório de Botânica do CCBS e Secretária Especial de Educação a Distância e Formação de Professores, a professora Edna é licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Maringá (1983), tem mestrado em Botânica pela Universidade Federal do Paraná (1992) e doutorado em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade de São Paulo (2000).

Parmotrema screminiae

A potência da atividade antimicrobiana, segundo a professora Neli Honda do Instituto de Química, é determinada em função da menor concentração do extrato ou da substância pura capaz de inibir o crescimento de um dado microorganismo.

Ensaios preliminares demonstraram que o líquen Parmotrema screminiae foi ativo contra Enterococcus faecalis, – cepa padrão (31,25 microgramas/mL), Enteroccoccus faecium – cepa resistente a Vancomicina e Staphylococcus aureus – cepa clínica, ambos 15,6 microgramas/mL e S. aureus – cepa padrão – 7,8 microgramas/mL.

Não existem produtos feitos a partir desse líquen, em especial pelo fato de as substâncias de natureza fenólica presentes nos liquens serem, em sua maioria, tóxicas.

“Além disso, o tempo de crescimento dos liquens é muito lento – de modo geral os liquens crescem em média 1 cm/ano – isso significa que não existem quantidades de liquens na natureza suficientes para manter a produção de qualquer medicamento ou outro produto. Mas, as substâncias biologicamente ativas de liquens servem como modelos estruturais para a síntese em laboratório”, explica a professora Neli.

Os líquens hoje ocorrem em pequena proporção e não devem ser usados para a preparação de chás, infusões etc, devido à toxicidade das substâncias presentes, alerta a professora do INQUI. “Além disso, a extração indiscriminada desses organismos na natureza causa alterações significativas na biodiversidade”, completa.

No GEL, as próximas fases de pesquisa com o líquen P. screminiae serão a avaliação da toxicidade do extrato, tentativas de síntese das substâncias ativas e possíveis modificações estruturais caso a toxicidade das substâncias seja elevada.

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