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Apicultores das águas: famílias pantaneiras produzem mel como alternativa de renda

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Foto: Cleberson Bervian

A produção de mel será uma alternativa de renda para mais duas famílias do Pantanal que, ao longo da última semana, receberam treinamento e materiais para realizar a atividade. Os novos apicultores vivem na Ilha do Mato Grande, um local remoto às margens do rio Paraguai, a cerca de três horas de barco da cidade de Corumbá (MS). O projeto é executado pela Ecoa com apoio do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Mato Grosso do Sul.

Para iniciar a produção, os ribeirinhos receberam macacões de proteção, 15 caixas ninho para colmeias, 45 melgueiras, cera, fumegadores e até os primeiros enxames, que viajaram de barco até o local onde o apiário será instalado. O trabalho deve ser executado a médio prazo, iniciando com o aprendizado para implantação do apiário até chegar no manejo de produção. A estimativa é que os enxames estejam aptos para início de produção em cerca de quatro meses.

Após os incêndios e período de seca extrema que atingiram a região pantaneira nos últimos anos, fontes de renda como pesca e coleta de iscas foram impactadas. Diante do cenário, o desenvolvimento da apicultura no local é considerado uma “luz no fim do túnel” por Nilza de Arruda, de 60 anos, matriarca da família beneficiada.

“Para mim, o mel é uma grande alegria. É uma coisa que a gente queria muito e que vamos cuidar para dar certo”. 

Dona Nilza explica que apicultura é “sonho antigo” para ela (Foto: Alíria Aristides)

Para Dona Nilza, o trabalho também é uma oportunidade de ajudar o Pantanal a se recuperar dos incêndios. “Depois do fogo, tudo adoeceu, nós seres humanos, os animais. E o Pantanal também ficou doente. Ter abelhas e produzir o mel é um jeito de cuidar da natureza, ajudar a recuperar nosso Pantanal e ter uma renda que talvez não precise mais mexer com pesca, com isca”.

Eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes, inclusive na região pantaneira. Carol Pauliquevis, bióloga da Ecoa responsável pela execução do projeto, explica que é fundamental fornecer alternativas diante das mudanças já perceptíveis no cenário.

“A gente tem visto cada vez mais presente e forte na região a ocorrência de secas extensivas e incêndios de grandes proporções. Isso afeta diretamente a flora, a fauna e as pessoas que vivem no Pantanal. Afeta também suas formas de renda, temos notado uma baixa quantidade de peixes e de iscas. Então tentamos viabilizar meios de subsistência, existência e permanência nos territórios”.

Outro ponto importante apontado pela bióloga é o serviço ambiental prestado pelas abelhas, o da polinização. “Além do mel em si, as abelhas introduzidas também entregam o serviço ecossistêmico de polinização, fundamental para a recuperação da flora pantaneira após os incêndios”.

Foto: Cleberson Bervian

Um mel único

Cleberson Bervian é apicultor, proprietário da empresa Apizzz Apicultura e consultor responsável pelo treinamento oferecido às famílias. Ele explica que o mel produzido na região pantaneira é único. “A flora daqui é muito especial. É uma mistura muito intensa de árvores, arbustos, principalmente trepadeiras e plantas herbáceas de crescimento rápido.  Isso compõe um mel multifloral que é muito característico”.

O fortalecimento dos enxames, momento em que as abelhas estarão prontas para produzir, deve coincidir com a floração do Cambará, espécie que ocorre com abundância no Pantanal e que será a marca principal do primeiro mel produzido.

“A ideia é aproveitar essa floração de cambará para converter em mel e iniciar a venda para turistas. Vamos tentar integrar a produção para ter oferta de mel ao longo do ano todo, aproveitando as florações para atender esse mercado que tem demanda gigante”.

Segundo Cleberson, um fator que favorece a produção é presença constante de turistas na região, que é rota para o turismo de pesca. “Muitos encostam nas casas pedindo produtos daqui. E o mel tem um apreço muito grande. Poder ajudar essas famílias a produzir um produto tão nobre, bonito e super valorizado é muito bacana. E tudo depende de três fatores: das abelhas, do clima e das pessoas. E as pessoas envolvidas estão bem animadas, é o que a gente precisa para continuar“.

Carlos, Neuzilene e Branco: apicultores das águas em formação (Foto: Alíria Aristides/Arquivo Ecoa)

Programa Oásis

A proteção e mesmo a recuperação da fauna de polinizadores é um desafio global que deve ser enfrentado de imediato. Deles dependem os ecossistemas e sua diversidade biológica e mesmo a sobrevivência da espécie humana, pois são fundamentais na produção de alimentos.  Mas como fazê-lo?

O Programa Oásis visa a proteção dos polinizadores em diferentes nichos, incluindo cidades. Os projetos e ações do Programa compreendem pesquisas; a educação com relação às diferentes espécies e seu papel nos ambientes; os riscos do uso de pesticidas na cidade e no meio rural; a contenção de desmatamentos; a formação de brigadistas contra queimadas e a produção apícola e de abelhas em regiões livres de agrotóxicos, dentre outras medidas. Os efeitos das mudanças climáticas localmente também devem ser analisados.

Alíria Aristides

Jornalista no núcleo de comunicação da Ecoa

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