Todo ano, quando chega o Dia Mundial do Meio Ambiente, somos convidados a olhar para grandes questões: as mudanças climáticas, o desmatamento, a perda de biodiversidade e a crise da água. São temas urgentes.
Nem sempre é assim que o meio ambiente aparece para quem vive nos territórios. Para essas pessoas, ele aparece no volume de água de uma nascente ou rio ao longo das estações, na preocupação com uma área que deixou de florescer como antes, na observação de um fruto que amadureceu cedo demais, ou até que deixou de nascer. Aparece também, no trabalho de quem pega o barco e atravessa o rio Paraguai para cuidar das abelhas, na decisão de cercar uma área para permitir a regeneração da vegetação e na escolha de plantar uma espécie nativa. Aparece na organização de um grupo de mulheres que busca transformar produtos da sociobiodiversidade em alimento, renda e permanência no campo.
Ao longo de quase quatro décadas de atuação no Pantanal e no Cerrado, a Ecoa tem acompanhado muitas histórias. São vidas que ajudam a compreender que a conservação raramente acontece como um evento isolado. Na verdade, ela costuma ser construída aos poucos, em decisões cotidianas que nem sempre recebem atenção para além das comunidades onde acontecem.
Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, em vez de falar sobre metas ou indicadores, reunimos algumas dessas histórias.
A água
Seu Nelson e Dona Edir conhecem cada curva do caminho que leva à cachoeira Água Branca. Eles são os proprietários da RPPN Água Branca, reserva criada para proteger o que a família já protegia antes de qualquer formalização.
A cachoeira, considerada a segunda maior de Mato Grosso do Sul, domina o olhar de quem a visita. Mas o que levou à criação da reserva não foi só a beleza da paisagem. Foi uma decisão tomada sob pressão, quando uma empresa interessada em instalar uma hidrelétrica, que destruiria a queda d’água, fez propostas financeiras difíceis de ignorar.

Mas os laços afetivos com o lugar onde cresceram filhos/as e netos/as falaram mais alto e eles recusaram. “Nós ia entrar numa incoerência muito grande. Nós protegendo a cachoeira, falando dela pra todo mundo e se beneficiar com isso. A vantagem financeira era boa, né? Mas aí preferimo optar pela preservação”, disse Seu Nelson.
A formalização foi um marco e também um precedente na defesa ambiental em Mato Grosso do Sul. A reserva também lembra que a conservação não surge apenas quando uma área passa a ser protegida por lei. Em muitos casos, ela começa muito antes, na relação construída entre as pessoas e o território onde vivem.
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Os frutos
Em diferentes regiões do Cerrado e do Pantanal, mulheres vêm construindo redes de colaboração em torno dos produtos da sociobiodiversidade. A princípio o trabalho pode parecer apenas econômico. Há coleta de frutos, produtos beneficiados, acesso a mercados e geração de renda. Mas quem acompanha essas iniciativas de perto percebe rapidamente que existe algo mais acontecendo: trocas de sementes, receitas partilhadas, processos de formação que ajudam a manter circulando conhecimentos que atravessam gerações.
Uma dessas mulheres é Dona Leonida Aires, pescadora e artesã, moradora da comunidade da Barra do São Lourenço, na Serra do Amolar. Ali, onde o rio Paraguai não é só paisagem, mas o caminho de casa, dona Leonida Aires, conta que “o rio é o que nos leva e o que nos traz. A água para nós é vida”.
É nas margens desse mesmo rio que ela e outras mulheres da comunidade coletam aguapé: planta aquática abundante no Pantanal, usada para fazer chapéus, bolsas, tapetes e esteiras, entre outros artigos. Uma técnica de origem indígena, ensinada por Catarina Guató, anciã da comunidade, e repassada para as mais jovens.
A CerraPan (Rede de Mulheres Produtoras do Cerrado e Pantanal) mostra, ao longo dos anos, que conservação e autonomia podem caminhar juntas. Não que uma seja consequência automática da outra, mas porque ambas dependem da permanência das pessoas em seus territórios e da valorização dos saberes que se constroem nesses lugares.
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O fogo
Edilaine Nogales está entre as primeiras pessoas a agir quando o fogo chega à Serra do Amolar. Brigadista comunitária, ela faz parte de um grupo que monitora, planeja e combate incêndios numa das regiões de mais difícil acesso do Pantanal. “É nossa luta para defender nosso Pantanal”, ela diz durante uma ação de combate ao fogo.

Nos últimos anos, os grandes incêndios no Pantanal ganharam espaço no noticiário nacional e internacional. As imagens costumam mostrar as chamas, a fumaça e a destruição. Mas quem trabalha diretamente com prevenção sabe que a história do fogo começa muito antes de qualquer registro se tornar notícia.
Ela começa nas ações de planejamento, na formação de brigadas, no monitoramento das condições ambientais e no conhecimento acumulado pelas pessoas que vivem nas comunidades e que convivem há séculos com as dinâmicas do território.
Dona Nilza Arruda, apicultora, moradora do Pantanal foi uma das pessoas que pediu pela criação da brigada feminina da Ilha do Baguari – a primeira do Pantanal. Ela guarda na memória o que os incêndios de 2020 deixaram. “O que eu vi foi sofrimento, choro e dor. A natureza perdeu. Vi passarinhos correndo do fogo, invadindo minha casa em busca de abrigo. Macacos gritando. Não quero mais ver aquilo.”
O trabalho de prevenção raramente aparece quando tudo dá certo. Por isso é fácil esquecer que boa parte da conservação acontece justamente nos momentos em que nada extraordinário parece estar acontecendo.
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As abelhas
Aparecida Lopes produz mel duas vezes ao ano em Miranda, no Mato Grosso do Sul. Um dos diferenciais da produção dela é o mel de aroeira, de cor mais escura e propriedades medicinais reconhecidas. “Inclusive nós até já vendemos para a Suíça”, conta ela com orgulho.

Por trás das colmeias existe uma rede de relações que vai além da produção: flores, polinização, biodiversidade e pessoas que dependem desses ciclos para construir e manter seus meios e modos de vida. As abelhas participam silenciosamente de processos fundamentais para a manutenção da vida, e em diferentes comunidades do Pantanal e do Cerrado a apicultura tem fortalecido estratégias que aproximam conservação ambiental e geração de renda. O mel é o resultado mais visível desse trabalho, mas não é o único.
A construção (em andamento) da Casa do Mel, em Miranda (MS), ajudou a tornar essa conexão mais evidente. Ela mostra que cuidar das abelhas, além da produção de mel, passa por reconhecer a importância de processos ecológicos desapercebidos no cotidiano.
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Os quintais agroecológicos
Maria José lembra bem das coisas como eram antes. “Ali era um pasto. A gente gradeou, jogou o calcário, e nossa terra nos deu.” Agroextrativista no Assentamento Andalucia, em Nioaque (MS), ela fala da transformação do próprio quintal com a simplicidade de quem não vê nada extraordinário no que faz. Vai ver é exatamente por isso que o que ela faz seja extraordinário. “A terra deu pra gente, né? A gente divide com a comunidade.”
Há uma tendência de associar a conservação a paisagens amplas e áreas extensas, mas algumas transformações começam em espaços muito menores, coisa de um hectare.
Nos quintais produtivos do Assentamento Andalucia, em Nioaque (MS), e na Paisagem Modelo Pantanal (PMP), famílias vêm construindo experiências que combinam produção agroecológica, segurança alimentar, geração de renda e fortalecimento comunitário.
Os quintais produzem alimentos, mas também produzem diversidade reunindo espécies diferentes da fauna silvestre, atraindo polinizadores, criando oportunidades de troca entre famílias e fortalecendo a relação das pessoas com a terra.
E produzem algo igualmente importante: a convicção de que é possível PERMANECER.
São iniciativas que pouco aparecem em mapas ou relatórios globais sobre o meio ambiente. Ainda assim, ajudam a responder algo que atravessa muitas discussões sobre sustentabilidade: como transformar princípios amplos em práticas concretas do dia a dia?
Ao mesmo tempo em que fortalecem a autonomia das famílias, essas iniciativas contribuem para a recuperação de nascentes, o plantio de espécies nativas e a ampliação da oferta de alimento para a fauna silvestre.
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O que permanece
As histórias reunidas aqui acontecem em lugares distintos, envolvem pessoas com trajetórias diversas e respondem a desafios específicos de cara região.
Ainda assim, compartilham algo em comum: a conservação não é uma atividade separada da vida cotidiana. Ela acontece junto com o trabalho, com a produção de alimentos, com a organização comunitária, com o cuidado da água e com a busca por condições dignas de permanência nos territórios.
Talvez seja por isso que o meio ambiente, quando visto de perto, tenha menos a ver com conceitos abstratos e mais a ver com relações.
Relações entre pessoas e paisagens. Entre conhecimento e experiência. Entre o presente e aquilo que torna possível imaginar futuros mais sustentáveis.
No Dia Mundial do Meio Ambiente, a Ecoa acredita que é dessas relações que vale a pena falar.
