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Brasil e Bolívia treinam comando conjunto de incêndios florestais no Pantanal

9 minutos de leitura

Incêndio que começa do lado boliviano da fronteira às vezes chega ao Brasil e o caminho inverso também acontece. “Tem incêndio que começa na Bolívia e vem para o Brasil, e também tem incêndios que começam no Brasil e vão para a Bolívia”, diz Alexandre Pereira, analista ambiental do Ibama/Prevfogo no Mato Grosso do Sul.

Entre 9 e 11 de setembro, no Centro de Convenções do Pantanal, localizado no Porto Geral, em Corumbá (MS), 40 profissionais de instituições brasileiras e bolivianas participaram do SCI-300, curso de Sistema de Comando de Incidentes voltado ao planejamento conjunto de resposta a incêndios que atravessam a fronteira. Foi a primeira vez que a formação, voltada ao manejo do fogo, aconteceu no Pantanal.

O treinamento envolveu instituições governamentais, organizações da sociedade civil e chefes de brigadas comunitárias e privadas, e terminou pouco antes do início da temporada mais seca do ano, quando o Pantanal, historicamente, costuma registrar os maiores incêndios – este ano sob o agravante da previsão de um Super El Niño.

Dados do INPE e do INMET, divulgados no Painel El Niño 2026-2027, classificam a bacia do rio Paraguai, que inclui o Pantanal, como a situação hidrológica mais crítica do país no momento.

Falando a mesma língua

Muitas vezes uma corporação sozinha não dá conta de uma ocorrência grande, seja um incêndio florestal ou outro tipo de emergência, explica Samuel Predrozo, capitão do Corpo de Bombeiros Militar.

Por isso, o foco da formação foi treinar quem comanda incêndios que crescem e passam a envolver mais de uma instituição. A lógica é que diante da necessidade de reunir diferentes entidades, cada uma com sua própria forma de trabalhar, todas operem sob um mesmo sistema, onde cada uma entende seu papel e o papel das outras, dentro do comando do incidente. Isso implica em utilizar uma linguagem operacional comum e dividir funções com clareza. Isto é, enquanto um setor cuida do combate em si, outro cuida dos formulários e registros que documentam a operação, outro da logística, e assim por diante. A divisão permite que instituições de portes e culturas de trabalho diferentes atuem juntas, entendendo o papel e a importância de cada uma, sem atropelar a atribuição umas das outras.

Um exemplo trazido pelo tenente-coronel Diego Ferreira é o trabalho realizado pela Polícia Militar Ambiental (PMA/MS), e que muitas vezes é uma frente menos visível dentro dessa estrutura: a orientação a propriedades rurais e a comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas para evitar queimadas ilegais, além do resgate de animais silvestres afetados pelo fogo.

O evento integra uma das estratégias que a Ecoa mantém desde os megaincêndios que atingiram o bioma a partir de 2019: aproximar, por meio de formações em comando de incidentes, as instituições que atuam na prevenção e na resposta ao fogo.

“Nosso papel dentro da Ecoa sempre foi a articulação, promover a integração multiagências em relação ao manejo integrado do fogo como parte de processos de resiliência, mitigação e adaptação às mudanças do clima e a eventos extremos que promovemos há anos no Pantanal.” – André Siqueira, diretor institucional da Ecoa.

Uma rede que passa pelo Pantanal

Esse entendimento sobre o papel de cada instituição apareceu também nas falas de quem já trabalha diretamente com resposta a incêndio, dentro e fora do Pantanal. Para Osvaldo Barassi Gajardo, especialista de conservação da WWF Brasil, o módulo mais revelador do curso foi o de gestão de recursos: mesmo os órgãos públicos, com toda a sua estrutura, dependem do apoio de fora numa emergência grande e é nesse ponto que “a sociedade civil organizada consegue se inserir em um sistema de comando de incidentes”, com um lugar formal para o trabalho de brigadas voluntárias e comunitárias dentro da gestão do incidente, não só ao lado dela.

Fábio Britto veio de Nova Lima, em Minas Gerais, onde integra a Brigada Rota MG30 e a Associação das Brigadas Florestais Independentes do estado, mostrando que o alcance do curso passa longe do Pantanal. Para ele, o ganho é prático, porque o sistema “evita o gasto desnecessário de recursos e cria uma interação mais afinada com as instituições que dão apoio ao combate ao incêndio florestal”.

Outra grande novidade dessa edição é que, pela primeira vez, redes de Bosques e Paisagens Modelo – plataformas de governança que reúnem governo e sociedade civil para discutir conservação e desenvolvimento no território – se reuniram presencialmente para tratar de governança do fogo. Participaram representantes da Hileia Baiana, entre a Bahia e o Espírito Santo, do Bosque Chiquitano, na Bolívia, com mais de 24 milhões de hectares, o maior bosque seco tropical do mundo, e da própria Paisagem Modelo Pantanal.

De acordo com André Siqueira, “a ideia é que, quando voltarem, esses bosques modelo fortaleçam suas governanças de fogo, respectivamente”. A expectativa é que a integração entre agências testada em Corumbá continue, com o SCI incorporado cada vez mais amplamente pelas instituições que atuam na prevenção e na resposta aos incêndios no Pantanal.

A iniciativa integra o Global Fire Management Hub, programa da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) em parceria com o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) para apoiar países na gestão integrada do fogo, em sinergia com o projeto “Early action for expected fire risk in the Pantanal” executado pela Ecoa com financiamento da Aktion Amazon. O evento também contou com apoio da Prefeitura Municipal e da Fundação de Turismo de Corumbá.


Saiba mais sobre o trabalho da Ecoa com brigadas comunitárias no Pantanal: veja aqui

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