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Crise hídrica, incêndios e perda de habitat ameaçam espécies migratórias no Pantanal

12 minutos de leitura
Foto: André Siqueira

Participação da Ecoa em painel técnico durante a COP15 debate estratégias de conservação em zonas úmidas e o papel das comunidades locais na proteção da biodiversidade

Os incêndios de grande escala, a intensificação da crise hídrica, as alterações no regime de chuvas e intervenções no território têm modificado profundamente as áreas inundáveis do Pantanal – ambientes utilizados como pontos de descanso, alimentação e reprodução por quase 190 espécies de aves migratórias, além de peixes, mamíferos e outros animais que dependem das zonas úmidas ao longo de rotas que conectam diferentes partes do continente.

Esse cenário será um dos temas do painel técnico “Do manguezal ao Pantanal: a importância das zonas úmidas para espécies migratórias e o papel da cooperação para a conservação”, realizado por Ecoa, IUCN, ICMBio e Save Brasil durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15 CMS).

Promovida pela ONU e sediada em Campo Grande (MS) entre os dias 17 e 24 de março de 2026, a COP15 CMS reúne representantes de mais de 130 países para discutir medidas de proteção às espécies que dependem de diferentes territórios ao longo de seus ciclos de vida – das aves migratórias aos grandes mamíferos.

O debate aborda o papel das zonas úmidas na conservação da biodiversidade e as estratégias necessárias para garantir a conectividade entre habitats localizados em diferentes países. Durante a apresentação, a Ecoa destaca experiências desenvolvidas no Pantanal que contribuem para a conservação, como a articulação da Paisagem Modelo Pantanal e o fortalecimento de brigadas comunitárias voluntárias de prevenção e combate a incêndios.

Mudanças ambientais afetam rotas migratórias

Considerado a maior área úmida contínua do planeta, o Pantanal tem enfrentado, nos últimos anos, um conjunto de mudanças ambientais sem precedentes. Segundo o diretor de programas e projetos da Ecoa, André Siqueira, o bioma vive um período de severidade climática marcado por eventos extremos, agravados pela perda de áreas alagadas e pela dificuldade de prever o comportamento do regime hídrico na região.

“Estamos vivendo um tempo de eventos climáticos extremos, com uma crise hídrica intensa a partir de 2019, considerada a mais severa dos últimos 100 anos. Nos últimos 40 anos, o Pantanal perdeu cerca de 60% de sua água superficial, segundo dados do MapBiomas, e foi o bioma brasileiro que mais aqueceu nesse período”, afirma.

De acordo com Siqueira, a região central da América do Sul, onde se localiza o Pantanal, apresenta uma lacuna nos modelos climáticos preditivos, o que dificulta ações preventivas diante de secas prolongadas ou cheias intensas.

Fenômenos como El Niño e La Niña afetam diretamente o regime de chuvas, enquanto obras de infraestrutura, barragens e mudanças no uso do solo contribuem para reduzir a quantidade de água na planície.

Com menos áreas inundadas e maior frequência de incêndios — mais de 90% provocados por ação humana — ambientes essenciais para a migração são alterados, como bancos de areia, campos alagados e áreas de alimentação utilizadas por espécies que se deslocam entre o hemisfério norte e o sul.

“Com os grandes incêndios há uma dificuldade enorme no senso de orientação, nidificação e pouso das espécies que utilizam a planície. Grandes áreas são queimadas e o que mais se perde é alimento. Tivemos perdas significativas de aves nos últimos anos, algo visível durante os combates aos incêndios”, relata.

Paisagem Modelo, governança territorial e cooperação internacional

Entre as estratégias apresentadas pela Ecoa está a articulação da Paisagem Modelo Pantanal (PMP), iniciativa que integra uma rede internacional de governança territorial baseada na participação de quem vive e atua no território. Nesse modelo, comunidades locais, organizações da sociedade civil, produtores rurais, povos tradicionais e instituições públicas discutem conjuntamente formas de uso, conservação e manejo dos recursos naturais, fortalecendo decisões construídas de baixo para cima.

Essa experiência dialoga com um conceito promovido pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN): as OMECs (Outras Medidas Efetivas de Conservação Baseadas em Área). As OMECs reconhecem como áreas de conservação territórios que não são unidades de conservação formais, mas que garantem proteção da biodiversidade por meio da gestão comunitária, do uso tradicional ou de acordos locais de manejo. Em outras palavras, reconhecem que a conservação pode acontecer fora das fronteiras das áreas protegidas convencionais, desde que haja gestão efetiva do território.

Segundo Siqueira, a lógica das paisagens modelo se aproxima desse conceito ao valorizar arranjos de governança que respeitam diferentes formas de ocupação e produção, sem excluir a presença humana.

“São processos em que a gestão do território é construída por quem vive nele. Isso permite conciliar produção, conservação e proteção ambiental, mantendo áreas fundamentais para a biodiversidade e para espécies que dependem da conectividade entre diferentes regiões”, explica.

No caso do Pantanal, a Paisagem Modelo envolve uma área transfronteiriça conectada ao Bosque Modelo Chiquitano, na Bolívia, formando um dos maiores territórios contínuos desse tipo no mundo, com mais de 20 milhões de hectares. Na região convivem agricultores familiares, ribeirinhos, pecuaristas, povos tradicionais e diferentes instituições, em um arranjo de governança que contribui para manter habitats utilizados por espécies que se deslocam entre países ao longo de suas rotas.

A participação no painel internacional também busca ampliar o debate sobre a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à conservação do Pantanal. Segundo Siqueira, a COP15 cria condições para que demandas do território avancem para além do campo técnico, permitindo consolidar políticas já existentes e ampliar a cooperação entre instituições, governos e organizações da sociedade civil.

“Muitas vezes já existem propostas e instrumentos construídos, mas que precisam de decisão política e articulação para sair do papel. Quando o Pantanal entra na agenda internacional, aumenta a chance de fortalecer essas iniciativas, tanto no Brasil quanto em articulação com países vizinhos”, diz.

Brigadas comunitárias como estratégia de proteção dos territórios

Outra estratégia destacada pela Ecoa é o fortalecimento de brigadas comunitárias voluntárias como parte das ações de prevenção e enfrentamento aos incêndios no Pantanal. A iniciativa se baseia no envolvimento direto de povos e comunidades locais na proteção dos territórios onde vivem, articulando monitoramento, vigilância e resposta rápida diante de focos de incêndio.

A presença dessas brigadas contribui para reduzir a ocorrência e a intensidade do fogo, mantendo áreas que funcionam como refúgio para a fauna e preservando habitats essenciais para espécies que dependem das zonas úmidas.

“Quando comunidades que têm identidade com o território participam do manejo e da defesa desses espaços, a capacidade de prevenir e responder aos incêndios aumenta muito. Na prática, isso significa manter áreas preservadas mesmo durante grandes eventos de fogo, o que faz diferença para a sobrevivência de muitas espécies”, afirma.

O diretor da Ecoa destaca que o papel dos povos e comunidades tradicionais vai além do combate aos incêndios. Em períodos de seca severa ou grandes queimadas, esses grupos frequentemente atuam no cuidado direto com a fauna, resgatando animais feridos, protegendo áreas de alimentação e mantendo locais que servem de abrigo quando grande parte do entorno está degradada.

“Existe uma relação muito forte entre essas comunidades e o ambiente onde vivem. Esse conhecimento é fundamental para a conservação, mas ainda aparece pouco no debate público, apesar de ser decisivo para manter a biodiversidade em regiões como o Pantanal”, diz.

Serviço

A Ecoa participa do painel técnico “Do manguezal ao Pantanal: a importância das zonas úmidas para espécies migratórias e o papel da cooperação para a conservação”, realizado no dia 24 de março, no Pavilhão Brasil, na Zona Azul da COP15.

O evento reúne ECOA, UICN, ICMBio e SAVE Brasil para discutir experiências de conservação e oportunidades de cooperação internacional.

📍 Pavilhão Brasil – Zona Azul 🗓️ 24 de março | 9h30

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