Moradores da comunidade centenária, que perdeu nascentes e córregos desde a ampliação da mineração na Morraria do Urucum, cobram ação do poder público
No começo da manhã desta quinta-feira (29), a água que saiu da torneira da cozinha de Edeltrudes Corrêa de Oliveira, a dona Edil, em Antônio Maria Coelho, Corumbá (MS), estava vermelho escura. No vídeo, um copo de vidro posto sob a torneira fica opaco em segundos. “A água na nossa casa hoje”, escreveu Edil ao enviar as imagens à Ecoa – Ecologia e Ação. Segundo ela, todas as casas da comunidade receberam a água assim, depois de uma chuva que não foi forte.
Edil disse que é essa a água que chega às casas “pro nosso consumo humano, pra tudo” e enfatizou, “esse é o desenvolvimento que essas mineradoras trazem para nossas comunidades.”
Ao site de notícias Campo Grande News, dona Edil disse que a chuva não explica a cor da água. Segundo ela, o fluxo de caminhões da mineradora levanta terra, poeira e pó de minério, que chegam até a nascente que abastece a comunidade, e o problema tem se repetido cada vez mais.
Antônio Maria Coelho é uma comunidade centenária a cerca de 45 quilômetros da área urbana de Corumbá, na borda oeste do Pantanal, ao pé da Morraria do Urucum. As famílias vivem da agricultura, do trabalho em fazendas e do extrativismo da bocaiuva.
Em junho, numa audiência pública em Corumbá sobre a hidrovia do rio Paraguai, dona Edil, que integra a Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira, descreveu assim o lugar onde vive: “De um lado ferrovia, do outro lado mineradora, do outro lado siderurgia”. Contou também que as nascentes da comunidade davam uma água que as pessoas da cidade iam buscar “por ser uma água tão rica, considerada mineral. […] Hoje já está se acabando, já se secou mais de 50% daquela água”, disse.
A comunidade não tem rede de água tratada. A partir de 2006, com a instalação de uma siderúrgica e a ampliação da mineração no maciço, vários mananciais que abasteciam as famílias secaram, como registrou um estudo da Embrapa Pantanal, e o córrego Piraputanga, segundo os moradores, também está secando. A água das casas passou a vir de uma nascente em propriedade particular e desce por gravidade em quilômetros de mangueiras e canos que os próprios moradores instalaram.
Em 2023, a Justiça estadual condenou uma mineradora a pagar R$ 1 milhão por danos morais coletivos pela redução da vazão do córrego Piraputanga, que abastecia a comunidade. A ação civil pública foi movida pelo Ministério Público em 2010, depois de um inquérito aberto em 2003 a partir de um abaixo-assinado de moradores de Antônio Maria Coelho. Segundo a sentença, a perícia confirmou o uso excessivo de água na lavagem de minério e o despejo de minério de ferro no córrego.
Em 2022, a Ecoa instalou na comunidade, com apoio do WWF-Brasil, uma estação de tratamento de água. Para se ter ideia, o filtro do sistema que teria de ser trocado a cada três meses ficou inutilizado em duas semanas devido a alta carga de resíduos. “Ainda não conseguimos encontrar uma solução que dê conta desse nível de contaminação de minério”, disse ao Campo Grande News Nathalia Ziolkowski, diretora-presidenta da Ecoa.
Nesta quinta-feira, a Prefeitura de Corumbá disse ao Campo Grande News que não sabia da situação e que vai verificar o caso com a comunidade. Em junho, ao mesmo jornal, a prefeitura tinha informado que acompanhava a situação da comunidade, mantinha diálogo permanente com os moradores e distribuía hipoclorito para o tratamento da água em casa. No entanto, não apresentou, prazo nem projeto para levar água tratada até lá.
As queixas sobre a água da comunidade já chegaram ao Ministério Público mais de uma vez. Em 2013, o Ministério Público Federal abriu procedimento para apurar os impactos da extração de minério de ferro em Antônio Maria Coelho, a partir de reclamações sobre a degradação dos recursos hídricos. Em 2025, a associação de moradores protocolou um abaixo-assinado pedindo a anulação da audiência pública sobre a ampliação de uma mineradora na região, alegando que não houve espaço para debate. No início deste ano, moradores de Antônio Maria Coelho e de Porto Esperança levaram novamente ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul denúncias sobre a poeira de minério que cobre casas, quintais e plantações.
“Nós já não sabemos mais como conversar com essas empresas, como reivindicar”, disse dona Edil. Na audiência de junho, ela tinha dito: “Não somos contra o desenvolvimento. […] Queremos um pouquinho de dignidade, um pouco de volta dessa dignidade que foi tirada de nós”.
Com apoio da Ecoa e da Rede de Mulheres Produtoras do Cerrado e Pantanal (CerraPan), a comunidade prepara um ofício ao Ministério Público Federal pedindo a apuração urgente do que aconteceu nesta quinta-feira, para verificar a relação da água alterada com a mineração e com as estradas e a drenagem usadas no transporte do minério, e medidas emergenciais para garantir água segura à comunidade, com análises laboratoriais independentes e, se necessário, fornecimento provisório de água potável. Pede também informações sobre os procedimentos já abertos sobre Antônio Maria Coelho e o acompanhamento do inquérito civil instaurado neste ano sobre a poeira de minério em Porto Esperança.
Referências
- Conflito pelas terras e pelas águas: notas das relações entre mineradoras e proprietários rurais em Corumbá – Edgar Aparecido da Costa, UFMS, 2014.
- Comunidade Antônio Maria Coelho: territorialidade e resistência pelo uso da bocaiuva no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Alberto Feiden et al., Embrapa Pantanal.



