Postado originalmente em 4 de novembro de 2025 por Luana Campos.
Não é à toa que se diz que “as mulheres são como as águas — crescem quando se juntam”.
No Cerrado, mais precisamente em Nioaque (MS), no Assentamento Andalúcia, essa força brota em forma de quintais produtivos: espaços onde soberania alimentar, agroecologia e autonomia caminham junto com a conservação do bioma, que é o coração das águas do país.
Ali as mulheres cultivam um novo modelo de produção — que alimenta o corpo, a comunidade e o território.
“Diversificar alimentos é muito importante pra nós”, resume Rosana Claudina, agroextrativista e liderança do CEPPEC – Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado.
A percepção carrega a essência do que é o projeto Quintais Produtivos, uma iniciativa pensada por mulheres do Cerrado e articulada pela Ecoa, que une produção agroecológica de alimentos em lotes familiares, geração de renda, conservação ambiental e fortalecimento da segurança alimentar.
Soberania alimentar e protagonismo feminino
O projeto nasceu de um desejo coletivo das mulheres do Cerrado: fortalecer a agricultura familiar, garantir segurança alimentar e construir caminhos sustentáveis diante das mudanças climáticas.
A proposta, elaborada junto às mulheres do CEPPEC, foi selecionada em edital do Fundo ECOS/ISPN, tornando-se o ponto de partida para uma experiência que agora inspira novas parcerias e apoios — como o do Global Nature Fund (GNF/BMZ), que apoiará o viveiro do CEPPEC e fará o aporte de parte das mudas para o plantio em áreas de restauração, e o da Bosques del Mundo (BdM), da Dinamarca, que contribuirá com o monitoramento da fauna silvestre por meio de câmeras-trap.
Rosana Claudina, explica que, embora muitas famílias assentadas vivam da terra, nem sempre conseguem produzir o próprio alimento. Faltam estrutura, assistência técnica e apoio contínuo para que o trabalho floresça.

Nesse cenário, o projeto dos Quintais Produtivos ganha ainda mais sentido: é uma experiência inédita e inovadora que busca criar condições para produzir com estrutura, gerar renda, enfrentar as mudanças climáticas e, sobretudo, demonstrar que a agricultura familiar pode ser exemplo de conservação e desenvolvimento para o país.
“Esse projeto, no primeiro momento, é como um exercício, mas a gente quer que isso dê tão certo que mais atores possam olhar para essa iniciativa e dizer ‘a gente precisa ajudar a agricultura familiar com esse modelo’, sabe? Não é um modelo para 10 famílias, é um modelo para agricultura familiar” – Rosana Claudina (Preta), agroextrativista e liderança no CEPPEC
Cultivar alimentos e fortalecer o território
Cada família participante cultiva quintais agroecológicos de até 1 hectare, com hortaliças, árvores frutíferas, espécies medicinais e nativas — um mosaico produtivo que alia saber tradicional, lida cotidiana e práticas sustentáveis.
O acompanhamento técnico é feito por meio oficinas, intercâmbios e visitas contínuas, a fim de garantir a diversificação dos cultivos, autonomia das famílias e o manejo adaptado às mudanças do clima.
A engenheira florestal Nélida Tainá Terena, responsável pela assistência técnica do projeto, destaca que o trabalho é construído em diálogo com os saberes locais. Seu papel, diz, é oferecer um olhar técnico que ajude a adaptar práticas tradicionais às novas condições impostas pelas mudanças climáticas, que já alteram o ritmo das chuvas, o comportamento das espécies e os tempos do plantio.
“Quando a gente entra nos territórios a gente nunca está indo para ensinar. Porque a gente sabe que quando a gente vem em territórios, tudo vem da nossa ancestralidade”, afirma Nélida.

A expectativa é que 100% das famílias envolvidas aumentem a diversidade de alimentos consumidos e que ao menos 30% do excedente seja comercializado em mercados locais e institucionais como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Plano Nacional de Alimentação Escolar).
Além disso, o Quintais Produtivos fortalece a estrutura do CEPPEC, que receberá novos equipamentos, como uma câmara fria e um forno industrial, para apoiar o processamento de alimentos e produtos da sociobiodiversidade.
Recuperar nascentes do Cerrado
Além da implantação dos quintais, o projeto também prevê a recuperação de duas nascentes que drenam para o Ribeirão Taquaruçu, afluente do rio Aquidauana, que por sua vez deságua no rio Miranda e alimenta as águas do Pantanal.
As áreas estão sendo cercadas e receberão mudas nativas — como baru e jatobá — reforçando a conexão entre conservação hídrica e restauração ecológica.
Essa frente do projeto conta com o apoio do Global Nature Fund (GNF/BMZ) e da Bosques del Mundo, ampliando o impacto das ações de conservação já desenvolvidas pela Ecoa no Cerrado e na Bacia do Alto Paraguai.
As câmeras-trap instaladas na região permitirão o monitoramento da fauna silvestre, fornecendo dados importantes sobre o uso do território por animais que dependem dessas áreas para sobreviver.
O trabalho responde também a uma preocupação recorrente das mulheres assentadas: a fome dos animais silvestres observada nos últimos anos. O avanço da soja na região reduziu drasticamente suas áreas de alimentação, o que fez aumentar a busca por alimento nas pequenas roças de subsistência.
Muitas agricultoras contam que a fome é tanta que os bichos não esperam nem mesmo os alimentos amadurecerem, “comem verde mesmo”. Daí também a importância do plantio de árvores frutíferas e nativas.
Semear novas formas de existir
Nathalia Ziolkowski, presidenta da Ecoa e coordenadora do projeto Quintais Produtivos, ressalta a importância da iniciativa que integra sustentabilidade ambiental, mitigação às mudanças climáticas, segurança alimentar e protagonismo das mulheres.
“Os quintais agroecológicos funcionam como núcleos de restauração ambiental, regenerando o Cerrado. As nascentes em recuperação têm o mesmo princípio, regenerar o Cerrado e beneficiar o Pantanal”, afirma.
Os quintais produtivos das mulheres do Cerrado são prova viva de que, onde autonomia e conservação caminham juntas, brota alimento, brota água, brota vida — e brota futuro.

