Delta do Salobra: consulta pública discute criação de unidade de conservação entre Pantanal e Serra da Bodoquena

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Imagem área da região do Delta do Salobra. Foto: Maurício Copetti

Área considerada prioritária para conservação reúne nascentes, espécies ameaçadas e uma das paisagens mais singulares de Mato Grosso do Sul.

Ao deixar a Serra da Bodoquena para encontrar a planície pantaneira, o rio Salobra se divide em múltiplos canais. No seu trajeto forma ilhas, lagoas, áreas sazonalmente inundadas, e cria – no encontro entre o alto e o baixo – uma paisagem que os especialistas chamam de delta, mas que na prática funciona como um berçário: de peixes, de aves migratórias, de onças, de ariranhas e de água limpa.

É nessa paisagem que não existe em nenhum outro lugar, entre os municípios de Miranda e Bodoquena, no Mato Grosso do Sul, que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) realiza nesta quarta-feira, 17 de junho, uma consulta pública para apresentar a proposta de criação do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra. Uma unidade de conservação (UC) que, se criada, protegerá cerca de 60 mil hectares onde se tocam quatro biomas: o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica e o Chaco paraguaio.

Para André Luiz Siqueira, diretor institucional da Ecoa, a relevância da proposta está justamente nas características únicas da área. “O Delta do Salobra reúne ambientes pouco representados nas unidades de conservação existentes no Pantanal e desempenha um papel muito importante na conexão entre áreas protegidas, terras indígenas e reservas privadas. Além da riqueza de espécies, é uma região estratégica para a conservação da água, da fauna e dos processos ecológicos que sustentam a região”, afirma.

A Ecoa acompanha o processo de criação do REVIS Delta do Salobra no âmbito de seu trabalho de apoio à criação e fortalecimento de unidades de conservação no Pantanal e no Cerrado, em parceria com a Fundação PEW.

O que é um Refúgio de Vida Silvestre?

O Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) é uma categoria de UC voltada à proteção de ambientes importantes para a reprodução, alimentação e deslocamento da fauna e da flora.

Diferente de parques nacionais ou reservas biológicas, o REVIS pode ser criado em terras privadas sem desapropriação. Os proprietários permanecem com suas terras e podem continuar exercendo atividades compatíveis com a conservação. O polígono proposto foi desenhado justamente sobre áreas com baixíssima aptidão para agropecuária intensiva: cerca de 50% já corresponde a Áreas de Reserva Legal, e o restante inclui morrarias, áreas naturalmente alagadas e formações florestais que já possuem restrições pela legislação vigente.

Segundo as informações técnicas apresentadas pelo ICMBio, atividades como pecuária de baixo impacto, agricultura familiar, apiários e a pesca no Rio Miranda podem continuar sendo desenvolvidas. O Plano de Manejo, construído com participação dos proprietários e das comunidades locais, vai definir as regras detalhadas. Mas e a pesca no Rio Salobra? Já é proibida desde 2018 por lei estadual, independentemente da criação da UC.

O que muda, concretamente, com a criação do REVIS: o ICMBio passa a ter responsabilidade compartilhada pelo combate a incêndios, com brigadistas e analistas ambientais atuando na área. Algo que hoje recai inteiramente sobre os proprietários.

Foto: Maurício Copetti

Por que o Delta do Salobra é uma área prioritária para conservação

Em janeiro de 2024, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima classificaram a região do Delta do Salobra como área prioritária para criação de unidade de conservação. A classificação não foi arbitrária.

A área está inserida em dois polígonos reconhecidos pelo governo federal como prioritários para conservação da biodiversidade. O Rio Miranda-Pantanal, de importância biológica extremamente alta, e a Serra da Bodoquena, de importância alta. Ao mesmo tempo, o Delta do Salobra se encontra dentro das Reservas da Biosfera do Pantanal e da Mata Atlântica, reconhecidas pela UNESCO.

Do ponto de vista ecológico, sua singularidade é justificada em números: 897 espécies de fauna avaliadas na região, das quais 42 ameaçadas de extinção. Entre elas, a onça-pintada, com 57 indivíduos monitorados pelo Instituto Delta do Salobra (IDS), arara-azul, cervo-do-pantanal, tatu-canastra, ariranha, cachorro-vinagre, lobo-guará, tamanduá-bandeira e anta. Foram registradas ainda 19 espécies de flora ameaçadas, além de espécies cavernícolas únicas, como uma planária classificada como criticamente em perigo.

E ainda, o Delta funciona como berçário para os estoques pesqueiros do Rio Miranda. As nascentes que descem da Serra da Bodoquena, filtradas pelas rochas calcárias do sistema cárstico, chegam à planície com uma transparência que é ao mesmo tempo ecológica e econômica. Elas sustentam o turismo de pesca que movimenta a região, a produção de mel que abastece apiários locais, e atrai pesquisadores de todo o Brasil.

A conservação da área está diretamente relacionada à manutenção de atividades econômicas que dependem da qualidade ambiental da região.

A consulta pública é uma etapa prevista no processo de criação de unidades de conservação e tem como objetivo apresentar os estudos técnicos realizados para a área, esclarecer dúvidas e ouvir contribuições de moradores, produtores rurais, representantes do setor turístico, pescadores, pesquisadores, organizações da sociedade civil e demais interessados.

Delta do Salobra. Foto: Divulgação ICMBio

Participação aberta à sociedade

A reunião acontece nesta quarta-feira, 17 de junho de 2026, às 14h, no Auditório da Prefeitura Municipal de Bodoquena (Avenida Manoel Rodrigues de Oliveira, 1020 — Bairro Bandeira II, Bodoquena/MS).

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