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Pantanal seca e queima 20 anos após Francelmo dar a vida lutando pelo bioma

17 minutos de leitura
Foto: Arquivo Ecoa

Via Midiamax, por Murilo Medeiros

  • O ambientalista morreu em protesto contra a devastação do bioma, que perdeu 1,7 milhão de hectares e está cada vez menos alagado

Há exatamente 20 anos, Francisco Anselmo Gomes de Barros, ambientalista conhecido como Francelmo, ateou fogo no próprio corpo em ato extremo de luta em defesa do Pantanal. A ação, durante protesto na Rua Barão do Rio Branco, em , impediu o avanço da lei que permitiria a instalação de usinas de açúcar e álcool no bioma. Em homenagem a ele, 12 de novembro passou a ser o Dia do Pantanal.

Mesmo assim, de 1985 para cá, o bioma perdeu mais de 1,7 milhão de hectares de vegetação nativa. Nestes 40 anos, a mineração cresceu 60% e as áreas de pastagem quadruplicaram na região pantaneira, segundo o MapBiomas. A inundação, característica definidora do Pantanal, reduz ano a ano: a água cobria 24% do bioma em 1985, mas encheu apenas 3% em 2024.

A agropecuária no planalto — onde nascem os rios que inundam o Pantanal — impacta diretamente na diminuição de área alagada na planície pantaneira, culminando em 2024, o ano mais seco da série histórica. O planalto da BAP (Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai) em Mato Grosso do Sul perdeu 2,1 milhões de hectares (40%) de vegetação nativa em 40 anos, quando a agricultura cresceu 5,9 vezes, conforme o MapBiomas.

Em 2005, ambientalistas lutavam contra as usinas, a instalação de represas e a formação de uma hidrovia no Rio Paraguai. Depois de 20 anos, as batalhas seguem similares e somadas ao desafio de equilibrar agropecuária e preservação da natureza. A situação é ainda mais complexa num contexto em que as mudanças climáticas ameaçam a existência de toda a humanidade.

‘O último herói do Brasil’

“O que o nosso querido Francelmo fez, a mim e a Stella e a todos nós chocou tanto, que ficamos um pouco aparvalhados com a notícia.

Foi uma imolação pela Pátria que na terra do mensalão destoa.

Mas até pode corrigir, o que o nosso Francelmo fez é mais do que um protesto.

Para mim tem o componente maior do heroísmo.

Francelmo o último herói do Brasil.

Meus sentimentos Iracema

Seu velho amigo,

Manoel de Barros”.

O ambientalista Francisco Anselmo (Foto: Arquivo Ecoa)
O ambientalista Francisco Anselmo. (Foto: Arquivo Ecoa)

Assim, em forma de bilhete à viúva do ambientalista, o célebre poeta sul-mato-grossense homenageou Francelmo no dia seguinte à morte. Em 2005, Francisco Anselmo, com 64 anos, já era conhecido pela luta contra a devastação da natureza no Brasil. Inclusive, Marina Silva — ministra do Meio Ambiente à época e atualmente — viajou a MS para prestar suas condolências à família e engrossar a campanha contra as usinas.

“Ele nasceu no Ceará, depois foi para a Bahia, onde trabalhou numa madeireira. Dizia: ‘Aproveitar os recursos naturais é correto, mas tem que ser de maneira consciente e adequada’. Na Funconams [Fundação para Conservação da Natureza de MS], uma das mais importantes do Estado na época, ele era presidente-executivo. Sempre vestiu a camisa da causa ambiental”, relata Jorge Gonda, ambientalista amigo de Francisco Anselmo.

Alcides Faria, diretor e um dos fundadores da ONG (Organização Não Governamental) Ecoa, conheceu Francelmo em 1982, período em que nem a ditadura militar impediu a luta de ambos. “Ele era figura central do ambientalismo no Estado e teve relevância nacional. Estava presente em todas as ações, era muito articulado, referência de coragem e compromisso”, explica Alcides, que falava com Francelmo todos os dias.

Imolação em via pública

A luta de Francelmo em defesa do Pantanal só cessou quando ele perdeu a vida no maior protesto possível. Na Rua Barão do Rio Branco, em Campo Grande, Jorge Gonda, Alcides Faria e mais 150 pessoas participavam do ato por volta de 12h do dia 12 de novembro de 2005. Eles protestavam contra usinas de álcool na Bacia do Alto Paraguai, projeto em tramitação na  (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) à época.

“O Anselmo me disse: ‘Às vezes, para conscientizar político, a gente precisa ser radical’. Mas eu jamais imaginei o que ele faria”, relembra o engenheiro Jorge Gonda. Então, Francelmo pediu que ele segurasse uma pasta e disse que precisaria resolver algo. “Perguntei se precisava de ajuda, e ele respondeu que não. O sobrinho dele, Léo, o  Douglas, a Maria Helena e outros da Funconams estavam lá. Ninguém desconfiou.”

Jorge Gonda, ambientalista. (Foto: André Morla, Jornal Midiamax)

Francelmo ateou fogo no próprio corpo, foi socorrido e morreu no dia seguinte. Na pasta entregue a Gonda, o ambientalista deixou cartas ao amigo, à imprensa, aos políticos e à esposa. “Já que não temos voto para salvar o Pantanal, vamos dar a vida para salvá-lo”, escreveu numa das mensagens. Além disso, Francelmo entregou a presidência da Fuconams a Jorge, que continuou o legado do ‘último herói brasileiro’.

Alcides Faria, da Ecoa, revela ter ficado paralisado quando soube que o homem em chamas era Francisco Anselmo. No entanto, o ato extremo foi capaz de brecar os esforços que causariam devastação no Pantanal. “Tivemos uma vitória, mas com um custo altíssimo: a vida do Francelmo. A morte dele travou o processo político. O impacto da morte foi global, gerou comoção e revelou ao mundo o que estava em jogo”, diz Alcides.

Homenagens póstumas

Em 2008, 12 de novembro passou a ser Dia do Pantanal, por aprovação do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) em proposta apresentada por Rodrigo Agostinho, atual presidente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente).

Além disso, no local onde Francelmo sacrificou-se pelo Pantanal, o monumento construído em sua homenagem hoje está destruído por uma sociedade que insiste em esquecer seu passado. A placa, onde a história do ambientalista deveria estar imortalizada, está tomada por ferrugem. A parte interna, onde tinha uma espécie de maquete em alusão ao Pantanal, parece ter desabado e o vidro está pichado.

Monumento em homenagem a Francelmo destruído 19 anos após a construção (Foto: Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Saem as usinas, seguem as ameaças

Bastaram 15 dias após a morte de Francelmo para os deputados estaduais rejeitarem o projeto de lei que autorizaria a construção de usinas na bacia pantaneira. “Seria um desastre. A produção de cana-de-açúcar gera rejeitos como o vinhoto, que normalmente vaza e contamina rios. O uso intensivo de agrotóxicos mataria polinizadores e reduziria drasticamente a biodiversidade”, explica Alcides Faria.

A principal usina planejada ficaria entre  e Corumbá, região de solos férteis e ecossistemas fundamentais para o bioma. A devastação atingiria o Pantanal todo e, especialmente, o Rio Paraguai sofreria impactos irreversíveis.

Além das usinas, o representante da Ecoa cita mais dois problemas enfrentados em 2005. “As represas e o projeto da hidrovia Paraná-Paraguai.” Esta última visa mudar completamente o ciclo das águas em parte do Pantanal, para manter a inundação durante todo o ano. As pressões para o projeto vêm de todos os lados, inclusive do crime organizado, que vê a hidrovia como possível rota para tráfico de drogas.

No entanto, Alcides Faria alerta que, além de muito prejudicial, a hidrovia seria inviável. “O Rio Paraguai não é navegável o ano todo. O Pantanal depende do regime natural de cheias e secas, e alterar isso seria destruir o bioma“. Da mesma forma, a formação de represas também alteraria o ciclo natural das águas. Segundo o diretor da Ecoa, estas duas ameaças seguem preocupando defensores do bioma.

Alcides Faria, diretor da Ecoa. (Foto: Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Desafio moderno: mudanças climáticas

Não é só o Pantanal que perde sua cobertura de água. O planeta, pouco a pouco, está secando por conta do aquecimento global e do uso inadequado do solo. “Esse processo começou em 2015 e teve início na parte central do Brasil, onde está o Pantanal. Isso explica as secas na Bacia do Paraná e seus efeitos devastadores”, explica Alcides, com base em artigo publicado pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos.

Ele considera que o grande desafio atual são os eventos climáticos extremos: secas severas, chuvas intensas e incêndios. “Tivemos grandes secas em 2015, 2020 e 2024. A parte norte do Pantanal tem recebido mais chuva, mas o sul, menos, o que aumenta o risco de incêndios”, explica o ambientalista.

Além disso, o avanço das áreas de pastagens causa degradação no local onde a atividade pastoril está implantada, mas também nas outras regiões dependentes dela. No entanto, Alcides Faria aponta que há saída para equilibrar pecuária e sustentabilidade. “A recuperação é cara e difícil. É preciso mudar o modelo agrícola, produzir mais perto das cidades e investir em assistência técnica para pequenos produtores.”

Trágica coincidência

Veado em meio às pastagens queimadas. (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Dados da Plataforma Terra Brasilis, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), mostram que houve três anos de maior destaque no volume de área queimada no bioma pantaneiro, desde a morte de Francelmo: 2005, 2020 e 2024. O ano de 2020 registrou 39.768 km² em chamas, o que pode ser explicado pela seca e, em grande medida, por falhas de fiscalização que deixaram de impedir grilagem e queimadas criminosas.

Naquele ano, os incêndios que destruíram cerca de 2,9 milhões de hectares só do Pantanal sul-mato-grossense também mataram mais de 17 milhões de animais vertebrados.

A coincidência trágica é que, 19 anos após a morte de Francelmo, a diferença da área devastada por fogo no bioma é de apenas 309 km². Em 2005, foram 27.472 km² tomados pelas chamas e 27.163 km² em 2024. Respectivamente, estes são o segundo e o terceiro ano com maior devastação.

Para conferir os dados completos da série histórica, passe o cursor do mouse sobre o gráfico abaixo:
Confira a seguir a área queimada no Pantanal, por mês, em 2025:

Especialistas da Ecoa apontam que a região pantaneira vive em situação de estresse hídrico, entre o fim de outubro e o início de novembro. Ou seja, a demanda por água é maior que a quantidade disponível. Assim, há previsão de possibilidade de incêndios de grandes proporções no Pantanal até o fim do ano de 2025.

O problema das onças

Com mais de 17 milhões de vertebrados mortos pelo fogo em um só ano, é impossível imaginar que não haveria desequilíbrio na cadeia alimentar. “Por volta de 2020, tivemos um resultado muito claro em relação às onças. De Corumbá até a Barra do São Lourenço, ao longo do Rio Paraguai, todos os cachorros foram devorados. Todos. Não sobrou cachorro em casa de nenhum ribeirinho“, relata Alcides Faria.

Em 2025, o caseiro Jorge Ávalo, de 60 anos, morreu no Pantanal de Mato Grosso do Sul após ataque de onça. O ataque aconteceu na região do Touro Morto, às margens do Rio Aquidauana. Além disso, outro homem foi atacado por onça-pintada e ficou gravemente ferido, inclusive com dentes do felino cravados no corpo, na região da Fazenda Milagre, localizada no Pantanal da cidade de Corumbá.

O caseiro Jorge Ávalo, morto por ataque de onça em 21 de abril. (Arquivo Pessoal)

Para o diretor da Ecoa, a provável razão é a desestruturação dos ecossistemas. “Se o ecossistema está desequilibrado, se há falta de alimento, o animal vai procurar. E aí acontecem os ataques próximos ou dentro das casas”, diz Alcides. Ele acredita que são necessárias medidas que incluam monitoramento dos animais e adoção de mecanismo de prevenção, já que a adaptação à presença das onças é inevitável.

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