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CEPPEC: 20 anos fortalecendo o Cerrado e quem dele vive

11 minutos de leitura

Em 1996, quando 164 famílias conquistaram o Assentamento Andalucia, após anos sob lonas na região entre Rio Brilhante (MS) e Nioaque (MS), mal imaginavam que dali brotaria uma das experiências mais inspiradoras de desenvolvimento sustentável no Cerrado. Anos depois, em 2005, nascia o Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado (CEPPEC) – criado por assentados com apoio da Ecoa.

Desde o início, sua proposta foi ousada: encontrar novas formas de gerar renda sem destruir o Cerrado, capacitar pessoas, realizar pesquisas e trazer mais qualidade de vida às famílias que vivem nesses territórios, colocando as mulheres na linha de frente dos processos.

“O Ceppec é um grande protagonista do extrativismo sustentável de frutos nativos do Cerrado brasileiro e tem um papel importante na replicação de saberes pela conservação e geração de renda para famílias de pequenas(os) agricultoras(es), indígenas e quilombolas. O baru carrega, além de muito sabor e qualidade, o fortalecimento dessas comunidades tradicionais em seus territórios”, afirma Nathália Eberhardt Ziolkowski, presidenta da Ecoa.

Nathália Eberhardt Ziolkowski, presidenta da Ecoa, se emociona ao lembrar do início do trabalho na organização e da parceria com o Ceppec. Foto: Ecoa

De lá pra cá, o CEPPEC construiu um caminho que desafia a lógica predatória tornando-se referência para trabalhadores/as rurais do Cerrado:

– 800 toneladas de frutos coletados e processados (25 toneladas de castanha de baru)

– 54 famílias extrativistas atuais e mais de 17.000 pessoas capacitadas

– Atuação em 8 municípios e 14 comunidades/assentamentos de Mato Grosso do Sul

– Incremento de 20% na renda mensal – que pode chegar a 2.500 reais

“Quando apareceu o Ceppec, bem no comecinho, que a gente começou a participar com medição de árvore, depois com a coleta do baru, a gente foi agregando aí o ganho. Aí a gente foi ganhando as coisas, foi melhorando pra gente”. – Dona Celi, assentada e agroextrativista

Dona Celi, assentada e agroextrativista do Ceppec. Foto: Ecoa

Da lona ao baru: uma história de resistência

A história começa na poeira dos acampamentos da reforma agrária. Foram 12 ocupações e 11 despejos.

O agroextrativista, Altair de Souza, conta que logo que chegaram ao lote sua visão era totalmente voltada para a monocultura e pecuária para a subsistência de sua família. Mas aos poucos descobriram que aquelas terras guardavam muito mais do que espaço para plantar feijão e criar gado.

Altair de Souza, agroextrativista e um dos fundadores do Ceppec.

Com apoio técnico e científico da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Ecoa e outras instituições, as famílias assentadas tiveram a oportunidade de conhecer a potência do Cerrado. Com isso o grupo – e em especial as mulheres – visualizou que podia gerar renda, garantir soberania alimentar e manter o bioma em pé.

“A gente descobriu com essa proposta de sustentabilidade, de uso sustentável dos recursos do Cerrado, que nós temos o baru. Que esse produto poderia ser usado na culinária, que a gente poderia estar transformando isso em pães, em vitaminas… e aí a curiosidade vai nos levando a descobertas incríveis. E a gente conseguiu então tornar o extrativismo um dos mecanismos muito fortes de geração de renda para dentro dessa proposta” – Rosana Claudina, liderança do Ceppec

Rosana Claudina Sampaio, agroextrativista e uma das fundadoras do Ceppec.

Hoje, além do cumbaru, outros frutos entraram na cadeia de valor, como pequi, jatobá, bocaiúva, jenipapo, araçá, araticum e outros.

Participação feminina como diferencial

No Assentamento Andalucia, a presença das mulheres sempre foi decisiva. Na busca por um endereço onde pudessem construir suas casas e edificarem seus sonhos, muitas delas lideraram na luta pela conquista da terra.

Esse protagonismo feminino não ficou restrito ao processo de assentamento: foi delas a decisão de dar um novo passo e criar uma entidade que as representasse, abrindo espaço para discutir sustentabilidade e, ao mesmo tempo, gerar condições financeiras para as famílias.

E assim o Ceppec nasce com um diferencial importante: o engajamento ativo das mulheres em sua fundação e gestão. Em um contexto em que a maioria das associações rurais era dirigida apenas por homens, o Ceppec rompe com esse padrão e garante às mulheres cargos de liderança – modelo que se mantém até hoje.

Renda, sabor e conservação

No Ceppec, a cadeia socioprodutiva se sustenta em:

  • Manejo sustentável: Coleta de apenas parte dos frutos, deixando 30% para a fauna e germinação, e não bater no pé de baru para derrubar frutos.
  • Governança feminina: Mulheres à frente de toda a cadeia, da produção à comercialização.
  • Comércio justo: garantia de melhores condições de troca e de direitos a produtores e trabalhadores em desvantagem comercial e/ou marginalizados

Hoje, os produtos do Ceppec, como castanha de baru torrada, o doce “Segredo do Cerrado” – que recebeu certificado de prata na gastronomia em 2011 – e o serviço de coquetel “Coffee-break do Cerrado”, são sinônimo de renda, sabor e conservação.

O baru do Ceppec já chegou até na Itália, durante o Terra Madre Salone del Gusto, em 2013, o maior evento internacional dedicado à gastronomia e à política alimentar, organizado pelo movimento Slow Food.

A grande novidade é que muito em breve, o baru do Ceppec terá o “passaporte carimbado” para a Dinamarca, por meio do projeto “Nuez de barú de familias locales del Cerrado brasileño a consumidores daneses”, abrindo novas portas no mercado europeu.

E os agroextrativistas não param por aí. O sonho é ver o baru ganhando o mundo:

“A gente quer que [o Ceppec] vire um modelo de produção pra todas as famílias na agricultura familiar, e a gente quer ver chegando na mesa das pessoas, nas escolas pra alimentar as crianças. Eu sonho com esse alimento chegando na África”, conta Rosana Claudina.

Raízes e futuro

Ao longo de sua trajetória, o Ceppec consolidou-se como um elo entre pequenos projetos e grupos rurais, criando conexões que impulsionam o desenvolvimento da cadeia do agroextrativismo sustentável no Cerrado. Essa rede de relações tem permitido superar dificuldades, profissionalizar processos, ampliar a infraestrutura e aproximar produção e consumo.

Nesse caminho, parcerias com instituições como a Ecoa, a UFMS e o WWF-Brasil e a Agraer, entre muitas outras, tem sido fundamentais para dar sustentação e escala ao trabalho, garantindo que o conhecimento local se some a políticas públicas, à ciência e ao apoio financeiro.

Para os fundadores e lideranças da associação, o espírito de coletividade sempre foi a base da caminhada. Eles reconhecem que foi graças às alianças construídas ao longo do tempo que o Ceppec conseguiu avançar.

Como ilustra Rosana, a ideia de “construir por muitas mãos” atravessa esse percurso, sustentada pela convicção de que o papel da associação é deixar caminhos abertos às próximas gerações.

“Nós vamos deixar construído este caminho pra que os que vierem depois de nós possam continuar reproduzindo, né? Um modelo justo, sustentável, que valida a vida e tudo isso que a natureza nos oferece”.

No aniversário de 20 anos, celebrado em agosto, o Ceppec segue vivo, gerando trabalho, ampliando seu impacto e fortalecendo a sucessão de saberes, práticas e valores que unem conservação, renda e dignidade.

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