Encontro reuniu 36 moradores da APA Baía Negra (MS) em uma experiência de escuta e diálogo conduzida por referência nacional em Justiça Restaurativa, como parte de projeto de proteção do território apoiado pelo Fundo Casa Socioambiental
Em comunidades pequenas, quase todo mundo se conhece. Compartilha as mesmas estradas, os mesmos rios, as mesmas preocupações. Nesses territórios, onde a vida é compartilhada todos os dias, fortalecer os laços entre as pessoas também é uma forma de cuidar do futuro.
Foi com esse propósito que 36 moradores da Área de Proteção Ambiental (APA) Baía Negra, em Ladário (MS), participaram, no último domingo (14), de uma atividade de Justiça Restaurativa. Conduzido pela juíza e facilitadora Dra. Raquel Domingues do Amaral (TRF3), o encontro promoveu uma experiência coletiva de escuta, diálogo e fortalecimento das relações comunitárias.
A atividade utilizou os chamados círculos de paz, uma metodologia que organiza a comunicação em grupo e cria um ambiente seguro para que as pessoas possam compartilhar experiências, sentimentos, percepções e expectativas sobre a vida em comunidade. Raquel explica que o trabalho desenvolvido integrou uma etapa inicial do processo, conhecida como círculo de raiz, “que é pra justamente quebrar um pouco das resistências”. O processo ajuda a criar confiança entre os participantes.
No início do encontro, parte dos moradores chegou esperando que o espaço fosse usado para tratar de outras questões da comunidade, como situações de moradia na APA. A diferença entre essa expectativa e a proposta do encontro gerou certa resistência inicial, mas ninguém foi embora. E ao longo do dia, à medida que as dinâmicas avançavam, o estranhamento foi dando lugar à participação.
“Foi muito bonito ver a transformação das pessoas que no início estavam mais reativas, percebendo que todo mundo ali tinha algo em comum, que todo mundo poderia ser vulnerável em algum momento e estava tudo bem”, relata Rayadine Salvatierra, técnica de campo da Ecoa, que acompanhou a atividade.
O que é Justiça Restaurativa e o que são círculos de paz?
A Justiça Restaurativa é uma metodologia estruturada que reúne princípios, métodos, técnicas e práticas voltadas à compreensão e transformação dos conflitos. Seu objetivo é ajudar pessoas e comunidades a reconhecer os fatores relacionais, sociais e institucionais que estão por trás das situações de violência ou de ruptura das relações, criando condições para que esses desafios sejam enfrentados de forma organizada, participativa e respeitosa.
Uma das principais ferramentas desse processo são os círculos de paz. Trata-se de um espaço seguro de diálogo, com regras e procedimentos próprios, que organiza a comunicação entre os participantes. Os círculos podem ser utilizados para fortalecer vínculos, construir consensos, lidar com divergências e apoiar decisões coletivas, sempre com foco na qualidade das relações e na convivência saudável.
Para a facilitadora, uma das principais contribuições do método é oferecer um espaço em que todos possam ser ouvidos com respeito.
“No círculo de paz os membros de uma comunidade podem estabelecer o diálogo em um espaço seguro para falar sobre suas necessidades e sentimentos, usando a linguagem da comunicação não violenta, de modo a construir consenso sobre temas sensíveis ou mesmo estabelecer um dissenso respeitoso sobre temas conflituosos para os quais a comunidade ainda não esteja madura para estabelecer uma escolha consensual.”
Os relatos após o encontro reforçaram esse efeito com vários moradores descrevendo a atividade como positiva e inesperadamente acolhedora. “Hoje eu me senti em comunidade”, disse uma das participantes ao final do dia.
Entre o diálogo e as preocupações do território
Durante a conversa, a profunda relação que os moradores mantêm com o Pantanal emergiu. Ao compartilharem suas percepções sobre o presente e o futuro da região, muitos participantes demonstraram preocupação com as mudanças trazidas pelo avanço de grandes obras de infraestrutura e da mineração. Entre os relatos mais frequentes estiveram a poeira provocada pelo transporte de minério, o aumento do tráfego de caminhões e o barulho constante de máquinas.
Para as famílias, essas transformações vão além dos incômodos do dia a dia. Elas levantam dúvidas sobre os impactos que podem causar à qualidade de vida da comunidade e a atividades que historicamente ajudam a sustentar o território, como o turismo e a pesca tradicional.
O encontro de domingo marca o início desse processo de escuta e fortalecimento de vínculos na APA Baía Negra, um caminho que, segundo a Dra. Raquel, se constrói ao longo do tempo, um passo a cada conversa – “é uma caminhada”.
A atividade integra o projeto “Ações estratégicas e participativas no MIF para proteção da APA Baía Negra e sua comunidade”, executado pela Ecoa e financiado pelo Fundo Casa Socioambiental.
Fotos: Rayadine Salvatierra/Acervo Ecoa














