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Mulheres de cinco biomas se reúnem para fortalecer protagonismo na conservação da biodiversidade

11 minutos de leitura

Por Paula Lanza, da Cáritas Alemanha

Lideranças da Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal compartilharam experiências, discutiram desafios comuns e construíram propostas para ampliar a incidência das mulheres na governança ambiental, na defesa dos territórios e na implementação do Plano de Ação de Gênero do projeto Redes pela Conservação

Nos dias 17 e 18 de setembro de 2026, a cidade de Corumbá (MS) recebeu o I Encontro Interbiomas de Mulheres, iniciativa do projeto Redes pela Conservação que reuniu lideranças femininas de diferentes territórios, povos, comunidades e organizações dos biomas Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. O encontro criou um espaço de intercâmbio, escuta e construção coletiva para fortalecer a participação das mulheres na conservação da biodiversidade, na governança territorial e na formulação de políticas públicas.

Participaram agricultoras familiares, agroecologistas, mulheres indígenas e quilombolas, pescadoras, extrativistas, artesãs, comunicadoras, pesquisadoras, assessoras técnicas e representantes das redes e instituições que integram o projeto. A diversidade de trajetórias e experiências permitiu um rico diálogo sobre os desafios e as contribuições das mulheres na defesa dos territórios, na produção de alimentos, na preservação dos conhecimentos tradicionais e na promoção da sociobiodiversidade.

O encontro integra as ações do projeto Redes pela Conservação, realizado pela Cáritas Alemanha, Rede Cerrado, Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e Rede Ecovida, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. No Pantanal, o projeto é executado pela Ecoa – Ecologia e Ação. O financiamento vem da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI) do Governo Federal da Alemanha, por meio do Ministério Federal do Meio Ambiente, Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear.

Ao longo da programação, as participantes construíram reflexões sobre os desafios enfrentados pelas mulheres em seus territórios por meio de metodologias participativas, como cartografia social, trabalhos em grupo, plenárias no formato aquário e teatro-fórum. As atividades evidenciaram a relação entre a proteção dos territórios, a garantia dos direitos das mulheres, a produção de alimentos, a autonomia econômica e a conservação ambiental.

As discussões apontaram que as desigualdades de gênero continuam presentes em diferentes espaços da vida social, influenciando a participação das mulheres em instâncias de decisão e limitando seu acesso a recursos, formação e oportunidades. Também foram identificadas ameaças comuns aos territórios, como desmatamento, queimadas, mineração, avanço do agronegócio, insegurança alimentar, violência contra as mulheres e impactos das mudanças climáticas.

Apesar dos desafios, o encontro destacou a força das articulações em rede e o protagonismo das mulheres na construção de soluções para seus territórios. Essa percepção foi compartilhada por Leonida Aires, conhecida como Eliane, pescadora e artesã da Comunidade Barra do São Lourenço, na Serra do Amolar, região pantaneira na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Presidenta da Associação de Mulheres Artesãs Renascer, da Rede Pantaneira e integrante da Rede de Mulheres Produtoras do Cerrado e Pantanal (CerraPan), ela ressaltou a importância do intercâmbio entre realidades distintas.

“Receber pessoas de lugares tão distantes, de biomas diferentes, é uma gratidão enorme, pois mesmo sendo de biomas diferentes, sabemos que elas estão conectadas, lutando pela preservação da vida e pela preservação do nosso meio ambiente, pelos direitos de nós mulheres. Aqui conheci tantas histórias lindas e de resistência. A gente se sente fortalecida.”

Leonida Aires, conhecida como Eliane é artesã da comunidade Barra do São Lourenço. Foto: Luana R. Campos /Acervo Ecoa

O sentimento de identificação entre mulheres que atuam em diferentes territórios também marcou a participação de Diva Vani Deitos, agricultora familiar agroecologista de Seara (SC), em uma região de transição entre a Mata Atlântica e o Pampa. Coordenadora da Apaco e referência na promoção de sistemas agroflorestais, fitoterapia e óleos essenciais, Diva destacou o valor das trocas realizadas durante o encontro:

“É muito gratificante saber que em outros territórios, em outros biomas, tem pessoas fazendo esse mesmo trabalho. Então a gente espera que nesse tempo de encontro, e também de troca de experiências, a gente consiga levar para nossas bases, nossos espaços, mostrando que as mudanças estão sim com as mulheres.”

Diva Vani Deitos, coordenadora da APACO. Foto: Luana R. Campos /Acervo Ecoa

Entre as estratégias apontadas para fortalecer essa atuação estão a ampliação dos intercâmbios entre biomas, o fortalecimento da agroecologia, a valorização dos conhecimentos tradicionais, a formação de lideranças femininas e o desenvolvimento de ações de comunicação que deem visibilidade às experiências das mulheres na conservação.

A conexão entre conservação da natureza, cultura e direitos das mulheres esteve presente em diversos momentos do encontro. Para Damiana Campos, fundadora do Instituto Rosa e Sertão e integrante da Rede Cerrado, a proteção dos territórios depende do reconhecimento das pessoas que os habitam e de seus modos de vida:

“A gente só acredita que o Cerrado vai poder se manter em pé enquanto os direitos das mulheres e meninas forem garantidos. Não existe separação de Cerrado e cultura. Enxergar a cultura existente nos territórios tradicionais, nas terras indígenas, é uma forma de ocupar outras formas de ver essa natureza viva. Para esse corpo feminino, um corpo de natureza. A gente não separa corpo, natureza e cultura.”

Damiana Campos, fundadora do Instituto Rosa e Sertão. Foto: Luana R. Campos /Acervo Ecoa

Um dos resultados centrais do encontro foi a construção de recomendações para o Plano de Ação de Gênero (P-GAP) do projeto. As participantes identificaram como prioridades o fortalecimento da participação e representação das mulheres nos espaços de governança, a promoção da autonomia econômica, a ampliação de processos formativos, o reconhecimento de seus saberes e a criação de condições concretas para garantir sua presença em atividades e processos decisórios.

A importância dessas trocas também foi destacada por Keylla Acácio dos Santos, liderança indígena e quilombola da comunidade quilombola do Mocambo, em Porto da Folha (SE). Coordenadora da secretaria da Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo do Mocambo e fundadora do Coletivo de Mulheres Quilombolas do Mocambo, Keylla ressaltou como a experiência fortalece a atuação coletiva em seu território:

“Trazer um pouco da minha cultura e levar um pouco de tudo o que aprendi aqui é uma potência muito grande para as mulheres do meu território e para o meu território.”

Keylla Acácio dos Santos, liderança indígena e quilombola da comunidade quilombola do Mocambo. Foto: Luana R. Campos/ Acervo Ecoa

A programação foi encerrada com uma imersão territorial na Área de Proteção Ambiental (APA) Baía Negra, em Ladário (MS). A atividade permitiu às participantes conhecer experiências locais de conservação e relacionar os debates realizados durante o encontro com os desafios e potencialidades vivenciados pelas comunidades da região.

📸Confira alguns momentos desse encontro:

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