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Tô no Mapa: Pantanal é um dos únicos biomas sem territórios autodeclarados

9 minutos de leitura
Fernanda Cano, gestora de projetos na Ecoa.

Ecoa participa de formação inédita sobre a ferramenta e passa a apoiar o automapeamento de comunidades pantaneiras

No Pantanal, comunidades tradicionais conservam o bioma há gerações, e apesar disso convivem com um problema recorrente: seus territórios não aparecem nos registros oficiais. Sem reconhecimento formal, essas famílias ficam, muitas vezes, excluídas de políticas públicas que dependem de comprovação de posse da terra.

Um exemplo disso é o caso do programa estadual de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) de Mato Grosso do Sul. As comunidades tradicionais e ribeirinhas não conseguem acessar a política pública porque o Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS), principal documento para permanência dos moradores nesses territórios, não é aceito. Nisso, apenas propriedades privadas foram contempladas no bioma.

É nesse contexto que a Ecoa passa a integrar a iniciativa Tô no Mapa, aplicativo gratuito pelo qual povos, comunidades tradicionais e agricultores familiares autodeclaram os próprios territórios. Nos dias 3 e 4 de setembro, representantes da organização participaram de uma formação inédita sobre a ferramenta na Reserva Bacupari, na Chapada dos Veadeiros (GO), reunindo organizações de diferentes biomas.

Participaram pela Ecoa a diretora-presidenta Nathalia Ziolkowski, o diretor institucional André Siqueira, a gestora de projetos Fernanda Cano e Rose Araújo, consultora do projeto Redes pela Conservação.

O que é o Tô no Mapa?

Criado em 2020 em uma parceria entre o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Instituto Cerrados e pela Rede Cerrado, o Tô no Mapa permite que as próprias comunidades desenhem os limites de seus territórios, indiquem locais de uso e registrem conflitos. O cadastro em si não titula nem demarca terras, mas gera uma base de dados georreferenciada sobre territórios, preenchendo uma lacuna que os registros oficiais em geral não alcançam.

Nathalia Ziolkowski, diretora presidenta da Ecoa, explica que a iniciativa “fortalece a organização social da comunidade, a articulação pelo território e também a identidade”. E como o aplicativo exige que o cadastro seja precedido de assembleia comunitária – já que não é possível uma pessoa mapear sozinha o território coletivo – “Ele necessita que haja um debate, uma construção conjunta nos territórios, de entendimento comum.”

Da esquerda para direita, André Siqueira, diretor institucional da Ecoa, Isabel Figueiredo, coordenadora do Programa Cerrado do ISPN e membra do Conselho da Ecoa, e Nathalia Ziolkowski, diretora presidenta da Ecoa.

Dados apontam menor desmatamento em territórios autodeclarados

O 6º Relatório de Povoamento do Tô no Mapa, divulgado em dezembro de 2025, analisou 399 territórios autodeclarados em 111 municípios de 11 estados, cruzando os polígonos com a série histórica do MapBiomas (1985-2024).

Os territórios autodeclarados preservam, em média, 80% de vegetação nativa, contra cerca de 65% nas áreas do entorno. Entre 2023 e 2024, o desmatamento dentro dessas áreas foi 16 vezes menor do que fora delas. A plataforma soma 1,3 milhão de hectares registrados, distribuídos em quatro dos seis biomas brasileiros. Pampa e Pantanal são os únicos sem comunidades cadastradas pelo Tô no Mapa.

O Pantanal fora do mapa

No Pantanal, três comunidades já estão cadastradas na Plataforma de Territórios Tradicionais (PTT), coordenada pelo Ministério Público Federal em conjunto com o Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT):

  • a Aldeia Uberaba, da Terra Indígena Guató (Ilha Ínsua);
  • a Comunidade Indígena Guató da Barra do São Lourenço;
  • e a Comunidade Tradicional de Isqueiros, do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, em MT.

Instituída por portaria da Procuradoria-Geral da República em março de 2019, a PTT reúne informações georreferenciadas sobre territórios tradicionais, reconhecidos oficialmente ou não.

Segundo o procurador Wilson Rocha, do MPF, a plataforma surgiu a partir da questão de “como proteger os territórios ainda não demarcados e o que fazer enquanto a demarcação não vem?”.

Procurador Wilson Rocha, do Ministério Público Federal.

Atualmente Tô no Mapa e PTT estão em processo de integração de dados.

A disputa pela tecnologia nos territórios

A Ecoa tem o compromisso de incentivar e apoiar as comunidades pantaneiras no processo de autodeclaração territorial, em decorrência de sua própria agenda de atuação.

“Uma das nossas lutas, que é algo muito importante para a garantia de direito dos povos e comunidades nos territórios, é o acesso à terra e aos bens comuns. Ter o seu território reconhecido de alguma maneira é muito importante para as comunidades que estão sofrendo pressão de todos os lados e que são muito pouco visíveis aos olhos do poder público.” — Nathalia Ziolkowski, diretora-presidenta da Ecoa

Para André de Oliveira Moraes, analista socioambiental do ISPN e integrante da coordenação executiva do Tô no Mapa, a iniciativa disputa não somente o território em si, mas o modo como a tecnologia tem chegado aos territórios. “A gente está disputando esse contato do conhecimento tradicional com a tecnologia”, afirmou durante a formação, chamando atenção para o risco das bets e das fake news. “Além de todo esse processo, a gente está apresentando uma alternativa de uso de toda essa tecnologia de uma forma que possa beneficiar essas comunidades.”

André de Oliveira Moraes, analista socioambiental do ISPN e integrante da coordenação executiva do Tô no Mapa.

Sobre o Redes pela Conservação

O projeto Redes pela Conservação é realizado pela Cáritas Alemanha, Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Rede Cerrado e Rede Ecovida, em parceria com o Governo Federal do Brasil via Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). No Pantanal é executado pela Ecoa – Ecologia e Ação. O projeto é financiado pela Iniciativa Internacional para o Clima (IKI) do Governo Federal da Alemanha, via Ministério Federal do Meio Ambiente, Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN).

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