/

Entre a língua e o rio, a vida de Seu Vicente Guató, Djyguapo

4 minutos de leitura
Mestre Vicente Guató ©Gabriele Viega Garcia 2015

Possivelmente o último falante fluente da língua Guató, Vicente Manoel da Silva morreu no dia 4 de agosto aos 81 anos, em sua casa, às margens do rio São Lourenço, no Pantanal.

Em 2002, quando a embarcação da equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS) atracou às margens do rio São Lourenço, Seu Vicente foi quem recebeu os visitantes.

A professora Ieda Maria Bortolotto, diretora científica da Ecoa, estava entre os pesquisadores que acompanhavam uma equipe do Globo Rural, com o jornalista José Hamilton Ribeiro. Vicente falava baixo, era calmo e ajudou a mãe, Dona Júlia, que já era cega naquela época, a interagir com as pessoas que chegavam.

“Fomos recebidos por ele logo que nossa embarcação atracou. Ele era calmo, falava baixo e foi muito atencioso com todos”, lembra Ieda.

Mais de duas décadas depois, Vicente Manoel da Silva morreu, aos 81 anos, na mesma casa, às margens do rio São Lourenço, no Pantanal. Em Guató, seu nome era Djyguapo – o som da asa do cabeça-seca.

Vivia sozinho, cuidando de seus aproximadamente 30 gatos a 180 km de Corumbá, sem estrada, seis horas de barco rio acima. Pescava, e enquanto a idade permitiu remou sua canoa feita de um tronco só, seguindo pelos rios com a zagaia e o arpão.

Leonida Aires, do povo Guató, conheceu Vicente e Dona Júlia, ainda criança. Sobre Vicente, guarda a lembrança de alguém com um jeito muito próprio.

“Recebia a gente, conversava. Tinha vez que não estava de boa conversa. A gente respeitava, porque era o jeito dele.”

“Cacique de si mesmo”, como o descreveu certa vez o jornalista Rodrigo Vargas, Vicente foi um dos últimos falantes fluentes da língua Guató. Quando recebia visitas, ensinava palavras e pedia que fossem repetidas de volta. Só fazia sentido falar a língua, dizia, se estivesse ensinando alguém.

O primeiro contato entre a Ecoa e Vicente aconteceu no comecinho dos anos 1990, no Morro do Caracará, enquanto ele pescava e juntava comida para o inverno. Nos anos seguintes, afetuoso, sempre recebia quem chegava fazendo questão de mostrar suas ferramentas, seu artesanato, e sempre atendendo aos chamados quando o assunto era a defesa do território e do povo Guató, lembra André Siqueira, da Ecoa.

“Eu sou daqui mesmo, não quero viver em outro lugar”, disse ele certa vez. “Não gosto de ficar sozinho, mas fazer o quê?”.

Djyguapo fica nas palavras que ensinou, na canoa que produziu e conduziu e no rio que escolheu como casa. A Ecoa se despede de Vicente Manoel da Silva com carinho e respeito.

📷 Imagens cedidas pelo Instituto Homem Brasileiro (IHB) e pela fotógrafa Gabriele Viega Garcia. Nosso agradecimento por permitirem que essa memória fosse compartilhada.

SAIBA MAIS:

👉Vicente Guató: a personificação de um povo – IHB

👉Exposição Fotográfica Mestre Vicente Guató – IHB

👉Ke dobyvakyn gotae: no começo do mundo / narrado por Vicente Manoel da Silva
(Djyguapo)

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Mais recente de Blog