– Matéria importante por registrar a crise global, mas com abordagem limitada ao não analisar mais cuidadosamente o Brasil dos últimos anos, principalmente as crises hídricas da bacia do rio Paraná.
– Recuperar hidrelétricas é uma das soluções e não a construção de novas represas, como defendido por construtores de barragens.
O New York Times publicou em seu site matéria sobre a perda de confiabilidade das hidrelétricas devido a crise climática. Água é a terceira maior fonte de eletricidade do mundo, atrás apenas do carvão e do gás natural, mas está perdendo espaço
O ponto de partida dos autores é a barragem de Tucuruí, na bacia Araguaia-Tocantins, concluída há cerca de 40 anos. Secas e períodos de estiagem prolongadas têm dificultado a geração de energia suficiente por várias usinas no mundo – Canadá, China, Estados Unidos e outros países também enfrentaram baixa produção hidrelétrica nos últimos anos. Registram que excesso de chuvas tem sido um problema, pois enchentes podem danificar seus equipamentos.
A matéria traz um dado da Ember Energy Research: em 2024 a produção global das hidrelétricas diminuiu em 3%. O consumo de energia está crescendo rapidamente e as usinas hidrelétricas normalmente fornecem mais da metade da eletricidade no Brasil.
Os autores tomam como referência primaria a seca entre 2014 e 2015, que teria levado o país à beira de um racionamento porque “alguns reservatórios estavam muito baixos’.
Creio que os autores não tomaram tento de que 2014 foi um ponto de partida para um quadro de sucessivas crises hídricas, principalmente na bacia do rio Paraná, onde está mais de 60% da geração de eletricidade por hidrelétricas no Brasil. Artigo publicado pela NASA, em novembro de 2024, mostra que a partir desta data ocorreram perdas de água terrestre. O processo teria iniciado com uma seca na região norte e central do Brasil. Publicamos um texto sobre o assunto no site da Ecoa: “A queda abrupta da quantidade de água doce global começou com uma seca massiva no Norte e Centro do Brasil, logo seguida por uma série de grandes secas na Australásia, América do Sul, América do Norte, Europa e África – “An Abrupt Decline in Global Terrestrial Water Storage and Its Relationship with Sea Level Change”.
– NASA: Água doce global teve redução abrupta e fenômeno começou no Brasil
Na verdade o que tem ocorrido é uma sucessão de crises, como registramos no texto Terceira crise hídrica na bacia do Paraná em menos de 10 anos.
Estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), divulgado em outubro de 2025, mostra que a crise hídrica dos últimos 10 anos ocorreu em bacias hidrográficas estratégicas do Brasil, incluindo a Araguaia-Tocantins, onde está a hidrelétrica de Tucuruí.
Voltando ao artigo no ponto que os autores trazem a luz a defesa de alguns setores de construção de novas hidrelétricas.
“Em 2023, a produção global de energia hidrelétrica caiu o equivalente ao consumo anual de Chile ou Filipinas — a maior queda anual desde 1965. A segunda maior ocorreu em 2021. A Agência Internacional de Energia atribui isso principalmente aos eventos climáticos extremos.
“O fato de isso estar acontecendo em tantos lugares é alarmante”, disse Robert McCullough, diretor da consultoria McCullough Research, sediada em Portland, Oregon. “A realidade é profunda e muito pouco compreendida.”
Apesar dos desafios e das preocupações ambientais e sociais de longa data, alguns governos e empresas de energia defendem construir mais barragens. A China está trabalhando no maior projeto hidrelétrico do mundo, no Tibete, o que levanta alertas sobre escassez de água na Índia e em Bangladesh.
“À medida que líderes ao redor do mundo tentam atender ao crescimento renovado no consumo de eletricidade, acredito que é hora de dar à energia hidrelétrica a atenção que ela merece”, escreveu Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, em boletim publicado em outubro.
Os ambientalistas
A questão do represamento dos rios para geração hidrelétrica enfrenta forte oposição dos ambientalistas e outros grupos, pois os danos econômicos e ambientais, no geral, são enormes. Um exemplo claro é o da bacia do rio Paraguai, onde está o Pantanal, região que têm planejadas dezenas de represas, as quais, caso construídas, provocarão danos econômicos diretos ao atingir a reprodução de peixes, o que afeta a pesca, a atividade que mais gera trabalho e renda na região.
Bill Powers, engenheiro e consultor em energia, citado na matéria do New York Times, afirma que não se deve construir mais hidrelétricas: “Se a barragem já existe e está produzindo energia, use. Mas não se construa mais hidrelétricas considerando todo o estrago necessário para abrir novas áreas”. Essa posição está em linha com o que defendemos e já o publicamos no site da Ecoa: restaurar usinas existentes em vez de construir novas. Algumas companhias o estão fazendo no Brasil – o processo deveria ser ampliado.
– Envelhecimento de hidrelétricas no Brasil reduz geração de energia
Registro final sobre a matéria do NYT: indica mais claramente apenas o desmatamento da Amazônia como uma das causas para as secas e seus impactos na geração das hidrelétricas, deixando de lado outros fatores, incluindo a devastação do Cerrado, o coração das águas no Brasil.
