*Com informações do levantamento e identificação de espécies realizado por Bheatriz Vargas da Silva, estudante de Biologia e estagiária da Ecoa.
Em apenas dois meses de operação, armadilhas fotográficas instaladas em áreas de nascentes do Assentamento Andalucia revelaram a vitalidade de um território em restauração
No Assentamento Andalucia, em Nioaque (MS), nascentes que abastecem o Ribeirão Taquaruçu — afluente do rio Aquidauana, que contribui para as águas do Pantanal — estão passando por um processo de cercamento, restauração e plantio de espécies nativas. Para acompanhar como a fauna responde a essa recuperação, a Ecoa instalou armadilhas fotográficas, conhecidas também como câmeras-trap, nas áreas em restauração.
O resultado apareceu rapidamente. Em apenas dois meses de operação, uma das câmeras registrou mais de 20 espécies de animais silvestres circulando pelo mesmo espaço onde hoje crescem quintais e mudas nativas.
O fato da área monitorada estar em uma zona de transição entre Cerrado e Pantanal torna os registros ainda mais significativos.
Quem passou por aqui?
Entre as espécies identificadas estão a anta (Tapirus terrestres), a cutia (Dasyprocta azarae), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o quati (Nasua nasua), o lobinho (Cerdocyon thous), o teiú (Salvator merianae), o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), o gavião-carijó (Rupornis magnirostris), o aracuã-do-pantanal (Ortalis canicollis), a jacutinga-de-garganta-azul (Pipile cumanensis), saracura-três-potes (Aramides cajaneus) , o veado (Subulo gouazoubira), o pombo (Leptotila sp.), além das pequenas aves como, tico-tico-rei-vermelho/Cravinha ( Coryphospingus sp.) e tico-tico-do-pantanal (Arremon sp.).
Parte dos registros vieram de Adriel Abreu, cujo lote no assentamento integra o projeto de recuperação de nascentes. Ele mesmo fotografou com o próprio celular e passou a enviar registros fazendo o monitoramento participativo, e ampliando o alcance da ciência dentro do território.
A diversidade registrada indica que as nascentes restauradas voltaram a oferecer alimento, abrigo e refúgio.
O baru no centro
Parte significativa das interações registradas gira em torno do baru (Dipteryx alata), árvore nativa fundamental tanto para o ecossistema quanto para as famílias do CEPPEC (Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado) que há duas décadas manejam seus frutos como fonte de renda no Assentamento Andalucia.
A anta e a cutia atuam como dispersores diretos do baru, cada uma à sua maneira. A anta consome os frutos e elimina as sementes viáveis através das fezes, que funcionam também como adubo e favorecem a germinação. Já a cutia, roedor que enterra sementes para estocar alimento, acaba esquecendo parte desses estoques quando há fartura de recursos na área. Nesses casos, as sementes abandonadas encontram condições para germinar, contribuindo para a regeneração da espécie em diferentes pontos do território.¹
O tamanduá-bandeira e o tatu-galinha participam dessa rede por outro caminho. Bheatriz explica que:
“Algumas formigas consomem a polpa do baru caído, limpando o fruto e deixando a castanha exposta. Esse processo atrai grandes populações de formigas, que servem de alimento para o tamanduá-bandeira e o tatu-galinha. Ao forragearem na base da árvore, esses insetívoros controlam a população de insetos e removem a terra ao redor, criando micros sítios favoráveis para que as sementes encontrem condições ideais de germinação”.
Essa relação entre os mamíferos insetívoros e o baru é um exemplo bastante intrincado da chamada cadeia de facilitação indireta.
O que os registros mostram
A presença dessas espécies nas áreas em restauração sinalizam que as funções ecológicas, como dispersão de sementes, controle de insetos, ciclagem de nutrientes, estão sendo retomadas. São processos que, juntos, sustentam a regeneração do Cerrado.
O monitoramento continuará subsidiando avaliações sobre a importância dessas áreas para a biodiversidade local e orientando o planejamento de futuras ações de conservação.
A iniciativa faz parte do projeto “Mãos Manejando Vida em seus Quintais”, realizado com financiamento do Fundo Ecos e apoios do Ministério para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (BMZ), Global Nature Fund (GNF) e Bosques del Mundo (BDM).
Ver esse post no Instagram
















