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Do Cerrado à Europa: projeto fortalece a cadeia da castanha de baru e avança na exportação para a União Europeia

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Iniciativa conecta comunidades do Mato Grosso do Sul a parceiros internacionais e prepara a produção para atender às exigências do mercado europeu

Em 2025, a autorização para comercialização da castanha de baru na União Europeia abriu um novo horizonte para a sociobiodiversidade do Cerrado brasileiro. A medida criou condições concretas para que cadeias produtivas estruturadas em territórios tradicionais possam acessar novos mercados.

É nesse contexto que se desenvolve o projeto de cooperação internacional que conecta o Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado (Ceppec), a Ecoa, a Bosques del Mundo (BDM) e a parceira comercial dinamarquesa NØDDEBAZZAREN. A iniciativa busca fortalecer a cadeia produtiva do baru com foco na produção sustentável, conservação ambiental, organização comunitária e adequação às exigências de exportação.

O que agora começa a se conectar ao mercado dinamarquês tem origem no território, sustentado pelo trabalho das comunidades que estruturaram essa cadeia ao longo dos anos.

Um território que sustenta o modelo

No Assentamento Andalucia, em Nioaque (MS), a cadeia do baru se estrutura a partir do conhecimento acumulado por famílias que vivem e manejam o Cerrado há décadas.

“O Cerrado é um celeiro completo. Aqui tem o alimento, a água, é o coração das águas do Brasil, tem a fauna que faz a semeadura e o povo que sustenta esse modo de vida”, afirma Rosana Sampaio, uma das fundadoras do Ceppec.

Esse modo de vida se traduz em práticas de agroextrativismo que respeitam os ciclos naturais, como a coleta dos frutos apenas após sua queda, respeitando os períodos de safra e maturação do baru, além de manter uma porcentagem de 30% em solo, para germinação de novos espécimes e alimentação da fauna silvestre.

Ao mesmo tempo, o trabalho coletivo permite estruturar uma cadeia que gera renda e fortalece a permanência das famílias no território.

“A gente vê a felicidade das pessoas em poder estar gerando esse dinheiro extra. Recebemos relatos de famílias que usaram para construir uma peça nova na casa, na compra de algum equipamento para a propriedade, para arrumar uma cerca, ou fazer uma reforma de pastagem”, relata Altair, agroextrativista do Ceppec, que também ajudou a fundar a associação.

Altair de Souza, CEPPEC

Preço justo e organização da produção

Um dos diferenciais da cadeia do baru no Ceppec é a construção de uma política própria de preço justo, baseada na realidade do campo.

“A gente vai primeiro para o campo, entende o esforço da coleta naquele ano, os custos, o tempo. Só depois define o preço. Não é algo feito de escritório”, explica Altair.

Na última safra, o Ceppec pagou R$ 1,00 por quilo de baru (fruto) aos coletores – valor superior ao praticado por políticas públicas e outros segmentos da cadeia. Para as famílias, esse reconhecimento se traduz em estímulo à produção e maior segurança econômica.

“Tudo que está acontecendo é um caminho certo pra nós. Com apoio, a gente consegue produzir mais, guardar mais baru e melhorar nossa condição”, afirma Adonias de Brito, que cuida do viveiro Plantando Águas no Ceppec. O agroextrativista se tornou referência local no conhecimento das espécies do Cerrado.

Adonias de Brito, CEPPEC
Adonias de Brito, CEPPEC

Intercâmbio internacional e construção de mercado

Em outubro de 2025, o Ceppec recebeu representantes da Bosques del Mundo (BDM) e da empresa NØDDEBAZZAREN para uma imersão de cinco dias no território.

A programação incluiu visitas às áreas de coleta, acompanhamento das etapas de beneficiamento e processamento da castanha, além de reuniões técnicas voltadas ao alinhamento de critérios para exportação.

“Em cinco dias a gente tenta mostrar a riqueza que existe aqui, mas essa articulação é muito maior do que isso”, resume Altair.

Durante a visita, os parceiros internacionais puderam conhecer de perto os processos produtivos e a lógica de organização comunitária que sustenta a cadeia. O grupo destacou a qualidade do processamento e a estrutura já estabelecida, considerada fundamental para atender às exigências sanitárias do mercado europeu.

Estrutura consolidada e adaptação às mudanças climáticas

A cadeia do baru no Ceppec vem sendo estruturada ao longo de 20 anos, com investimentos em organização, infraestrutura e qualificação dos processos.

Hoje, a capacidade de armazenamento permite manter o baru estocado por até três anos, garantindo regularidade no fornecimento mesmo diante das variações naturais da safra – cenário que tem se intensificado com as mudanças climáticas.

“Hoje a gente já observa diferenças grandes de produção entre regiões na mesma safra. Ampliar a articulação é essencial para garantir o abastecimento”, explica Nathalia Ziolkowski, presidenta da Ecoa e coordenadora do projeto.

Nathalia Ziolkowski, presidenta da Ecoa e coordenadora do projeto “Nuez de barú de familias locales del Cerrado brasileño a consumidores daneses”

Outro diferencial é o aproveitamento integral do fruto. O endocarpo – parte mais dura que envolve a castanha – é utilizado pelas famílias coletoras como carvão vegetal de alta durabilidade, reduzindo a necessidade de uso de lenha e agregando valor ao processo produtivo.

Certificação e acesso a novos mercados

Em 2026, o projeto avançou em uma etapa estratégica para a inserção do baru no mercado internacional: a certificação orgânica.

A iniciativa contou com a assessoria de José Fábio Soares, engenheiro de alimentos e especialista em agregação de valor a produtos da sociobiodiversidade, com atuação em cooperativas do Cerrado e na articulação de mercados para a agricultura familiar.

Segundo ele, a certificação orgânica reconhece práticas que já fazem parte do cotidiano das famílias, construídas a partir de princípios da agroecologia. O processo envolve tanto o manejo no campo quanto a organização da agroindústria, incluindo a implementação de controles de qualidade, rastreabilidade e segurança sanitária – elementos essenciais para atender às exigências do mercado europeu.

Esse movimento amplia as oportunidades de inserção em nichos que valorizam produtos de origem sustentável e remuneram melhor por isso.

Ao falar sobre o papel do extrativismo nesse contexto, José Fábio reforça que a geração de renda está diretamente ligada à conservação do bioma:

“A partir do momento em que as famílias passam a ter a oportunidade de comercializar os produtos do extrativismo, sem a necessidade de fazer o corte ou substituir as plantas nativas por outras culturas produtivas, o extrativismo passa a oferecer uma condição de sustentabilidade econômica. E, automaticamente, a gente começa a perceber que o baru em pé, assim como o jatobá e outros frutos do Cerrado, produz muito mais e gera mais oportunidades de renda para as famílias do que qualquer outra cultura que poderia ser colocada nesse espaço.”

Para ele, o CEPPEC reúne condições importantes para esse avanço, com uma trajetória consolidada, engajamento das famílias e um produto com características próprias, reconhecido pela qualidade.

José Fábio Soares, engenheiro de alimentos e especialista em agregação de valor a produtos da sociobiodiversidade.

Um modelo em construção

Ao longo do processo, o Ceppec também passa por uma transformação institucional importante: de beneficiário de projetos para parceiro comercial em uma cadeia internacional.

Esse movimento reflete o amadurecimento da organização e o fortalecimento de um modelo que articula conservação ambiental, geração de renda e valorização dos conhecimentos locais.

“O extrativismo precisa ser reconhecido como modelo produtivo. E a gente está provando que tem capacidade de gerar renda e sustentar as famílias”, afirma Rosana.

Ao viabilizar a exportação do baru, o projeto ajuda a consolidar uma cadeia baseada na sociobiodiversidade, conectando territórios, mercados e modos de vida – e mostrando que é possível gerar renda mantendo o Cerrado em pé.

📸Confira as imagens [Fotos: Luana Campos/Ecoa]

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