Durante a COP30, na Cúpula dos Povos em Belém (PA), mulheres do Cerrado ocuparam a Casa Feminista para trocar experiências, fortalecer redes e levar suas vozes às discussões sobre clima, território e soberania. A seguir, em suas próprias palavras, Lidiane Omilewá, uma das cursistas da Formação em Liderança para Mulheres na Conservação do Cerrado compartilha o que viveu e aprendeu nesse espaço de acolhimento e atuação política:
Sou Lidiane Omilewá e participei da Cúpula dos Povos pela Ecoa, em parceria com a Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB). Fiquei alojada na Casa Feminista, onde fui uma das selecionadas pelo curso Lideranças de Mulheres pela Conservação do Cerrado. Tive a honra de, através do curso que a Ecoa está proporcionando, ter a oportunidade de vivenciar a cúpula dos povos nessa COP30, nesse momento histórico de 2025, em que a participação dos povos marcou mesmo a realização das conferências que vêm acontecendo nos últimos anos. E foi uma experiência maravilhosa, desde a experiência de estar numa casa coletiva, com mulheres, diferentes realidades, diferentes locais do Brasil, quilombolas, ribeirinhas, agricultoras, diferentes perfis ali convivendo, se amparando, se acolhendo.
Para mim, o mais marcante foi conectar com mais uma rede de mulheres quilombolas, do quilombo de Arirá, do Pará, crianças, mães, filhas, tias, avós, todo mundo junto. Eu venho nessa caminhada de conexão com saberes tradicionais e com os quilombos, então conviver com essa família foi um grande presente dentro dessa experiência pra seguir nessa conexão com esses povos, com essa experiência que é tão referencial pra mim, dentro do meu caminho, enquanto mulher negra e da bandeira que eu venho levantando enquanto mulher cerrativista, aprendiz de uma mestra quilombola do Cerrado, que é a Dona Flor, e que me motiva muito a fazer os intercâmbios. Faço intercâmbio muito com os quilombos da Bahia, e agora fazendo essa conexão com o quilombo do Pará foi muito especial.
Pude participar na Cúpula dos Povos de uma atividade sobre racismo ambiental com diferentes perspectivas de olhar para esse racismo. Sobretudo, nessa atividade específica, falando do lucro de empresas, fazendo uma reflexão, o quanto o lucro das empresas está diretamente relacionado à violação de direitos humanos. Então, por que o capitalismo traz o lucro acima da vida? Então, uma atividade que aprofunda essa reflexão e que traz aí na representatividade de vários povos. Desde os povos aqui dentro do nosso contexto brasileiro, na sua diversidade: quilombolas, ribeirinhos, agricultores… E a gente também tinha ali representações da Palestina. Então tinha ali um movimento falando sobre unificar as pessoas que são atingidas pelas guerras, pelas catástrofes, na importância de ter aí uma estratégia internacional de enfrentamento da exploração do capitalismo e cuidando desse impacto e enfrentando para que isso não se perpetue. Então, foi falado de um tratado internacional vinculante, muito interessante, para que regras funcionem para as empresas em diferentes países, que eles possam ser fiscalizados, que as empresas possam ser fiscalizadas, que elas possam ser notificadas, que realmente a gente possa se unir e se proteger.
Então, isso para mim foi muito interessante saber dessa possibilidade, saber que existe uma articulação em prol dessas possibilidades de obrigar as empresas a seguirem essas regras. Então, foi uma atividade que trouxe de novo essa questão da mudança urgente do modelo capitalista, a importância da soberania energética, alimentar, que a gente tem que lutar mesmo, porque por mais que existam leis, essas leis sem a luta para ocupar os espaços e fazer valer essa lei, não vão servir de nada.
E teve uma atividade também muito legal ligada as questões de gênero e questões ambientais, uma atividade que foi um tribunal bastante forte, com diferentes vozes ali fazendo denúncias em relação à violação dos seus corpos. Tivemos ali quebradeiras de coco, tivemos mulheres trans falando da violação dos seus corpos, sem a visibilidade dentro da transição climática. Então foi bem forte a participação ali de diversas frentes falando sobre essa questão da violação dos corpos. E no final foi feita uma carta com essas denúncias, e a gente tinha ali a escuta de representatividades importantes do governo para acolher essas denúncias e levar para os delegados da COP. Tiveram outras atividades também ao redor da cúpula, que não estava dentro da cúpula, nem na zona azul da COP30, mas teve um movimento da Casa Sul Global, que é uma casa que mobiliza, se articula com projetos que são colaborativos, inovadores, então foi muito legal ver uma mesa também repleta de mulheres falando sobre experiências de financiamentos e apoios com recurso financeiro para diferentes projetos, dando esse protagonismo na ação e na execução das atividades para diferentes contextos, apontando que a crise climática é uma crise de direitos.
Então, como que essas financiadoras, essas iniciativas podem mudar essa realidade? E fazer uma aliança da diversidade? Que também atue para uma solução comum? A gente teve falas de mulheres, de diferentes palestrantes do Fundo Elas, teve uma palestrante que está ligada ao financiamento do Itaú, teve também uma palestrante internacional de Moçambique, a Alda, falando da importância da visibilidade cultural e econômica nas comunidades, falando da importância de eleger bem essas agendas. E dar esse protagonismo para elencar, para poder atuar nas agendas que são realmente importantes.
A marcha, então, foi um momento crucial dessa experiência, a gente realmente marchar ali unindo as nossas necessidades, unindo as nossas demandas, onde elas se interseccionam na luta. A gente via ali a luta por água. Água não é mercadoria e a gente tinha essa faixa bem enorme falando disso. Quem defende essa agricultura consciente, quem defende agroecologia, está vinculada a esse grito de voz. As mulheres também, que passam situações de violação de direitos de não ter acesso à água, também estavam gritando pela mesma causa. Foi uma aliança linda. Onde a gente viu que as nossas demandas, que atingem os nossos corpos e as nossas vidas diretamente são compartilhadas muitas vezes em diferentes contextos. Foi muito bonito! Essa foi a força da vida mesmo falando.
E uma plenária final que trouxe a cúpula das infâncias, a voz das crianças, que trouxe a carta final da cúpula dos povos, foi muito emocionante. Vários grupos, várias bandeiras ali erguidas na plenária final, foi muito emocionante ver a verdadeira humanidade e o espírito comunitário de aliança. Para que a gente possa realmente ser essa força que traz a mudança e que continua colocando a vida no centro. Então, foi isso, e muito mais.
Mas, o que eu posso trazer que é uma coisa importante: eu senti a ausência do Cerrado ali nas pautas principais da Cúpula dos Povos. Claro, a gente estava na floresta amazônica, então isso gritou muito. Mas o Cerrado é fundamental e percebi uma baixíssima representatividade, não consegui interagir com ninguém além de nós que levantasse essa bandeira. Então foi essencial que a gente estivesse ali dando alguma visibilidade, a gente não teve um espaço de fala, uma proposta de vivência, mas estivemos ali presentes e em todas as oportunidades a gente trouxe a nossa localidade, a nossa referência. O coração das águas é o Cerrado, então a gente conseguiu marcar essa presença, mas trouxe a reflexão profunda de que está muito aquém da necessidade que se tem de visibilizar políticas públicas para garantir a preservação das águas, com esse olhar para o Cerrado, então há muito o que se fazer.
Na Casa Feminista, mais de 60 mulheres de diferentes territórios se reuniram para dialogar sobre justiça climática, defesa dos territórios e transição justa. Além do apoio institucional, a Ecoa viabilizou a participação de três cursistas da “Formação em Liderança para Mulheres na Conservação do Cerrado”, iniciativa realizada com apoio do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF) e Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB).
Participam das atividades da Casa Feminista e da Cúpula dos Povos: @anacarol.alves @bonanomijuliana e @raizeiraquantica acompanhadas por @jolu_batista que também facilitou a etapa presencial do curso.
Sobre o CEPF
O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, União Europeia, da Fundação Hans Wilsdorf, da Gestão Ambiental Global, o governo do Canadá, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Um objetivo fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida na conservação da biodiversidade.
