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Empresários e proprietários de áreas às margens do rio Cabaçal são contra represas

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Sérgio Olímpio, mobilizador local e proprietário de rancho às margens do rio Cabaçal.

-O rio Cabaçal é fundamental para o Pantanal.

Empresários da pesca e proprietários de ranchos localizados às margens do rio Cabaçal (MT) estão se mobilizando contra a instalação de represas no rio. O movimento começou após audiência pública realizada em agosto de 2022 pela empresa responsável pelo projeto, São José Energia PCHs.

A obra prevê o barramento de 6 trechos do rio, distribuídos pelos municípios de Reserva do Cabaçal, Rio Branco, São José dos Quatro Marcos, Lambari D’Oeste e Araputanga, no Mato Grosso. Curvelândia, outro município da região, também deve ser diretamente impactado por estar localizado a jusante dos locais onde as represas devem ser instaladas.

Além de ser um afluente do rio Paraguai, o Cabaçal é detentor de algumas das principais nascentes que abastecem o Pantanal.

Foto: Fernanda Cano.

Depoimentos

“Sou morador daqui da região desde 1968 e pela minha experiência de vida, eu acho que o rio Cabaçal não tem capacidade para esse tanto de usinas. Eu como morador da região, acho que não é adequado essa situação, eles tinham que procurar os moradores antigos que tem conhecimento. Tenho um rancho lá na beira do Cabaçal há 15 anos e vejo a situação das secas e enchentes. O rio só enche com as enxurradas e está assoreando, sei disso por causa do meu tempo de convívio e não tem condições para essa construção de represas”, relata José Carlos Correa.

José Carlos Correa, empresário e proprietário de rancho às margens do rio Cabaçal. Foto: Fernanda Cano.

“Resido em São José dos Quatro Marcos há mais de 38 anos, tenho uma área de lazer na beira do rio Cabaçal há 16 anos, além de mim tem mais 71 moradores nessa região. Com essa proposta da usina vai trazer uma desavença muito grande para as pessoas que tiram o seu sustento do rio”, conta Mauro Pereira.

Mauro Pereira da Silva, proprietário de rancho às margens do rio Cabaçal. Foto: Fernanda Cano.

Para ele, a vivência de quem mora na região deve ser valorizada. “Não sei muito bem onde está a cabeça desses engenheiros que estudaram só a parte deles, mas não estudaram a parte dos pequenos agricultores e da comunidade que vivem ali. Pois a parte do rio que eu tenho convivência, ele tem apenas meio metro de água nessa época da seca. Se fizer essa usina na parte alta dele, o que será de nós? Vai virar areia, deserto, mais uma tragédia na nossa região. Gostaria que as autoridades competentes valorizassem as pessoas e ribeirinhos que vivem do rio”.

Márcio Lopes da Silva relata ter notado que o nível do rio foi ficando mais baixo com o passar dos anos. “Hoje conseguimos atravessar o rio com água na canela, coisa que a gente não fazia antigamente, agora imagina só se chegarem a instalar essas usinas? Vai secar totalmente, vai acabar com o rio Cabaçal que desde criança eu nadava e pescava. Vai acabar definitivamente com tudo. Por isso, eu sou totalmente contra, não tem necessidade de fazer usina. Só vai atrapalhar, acabar com os peixes e secar o rio.” 

Márcio Lopes da Silva, empresário e proprietário de rancho às margens do rio Cabaçal. Foto: Fernanda Cano.

Odair Monteiro da Rocha trabalhou na construção de represas no rio Jauru, localizado no Mato Grosso, e relata a destruição vivenciada na região. “Eu prestava serviço com transporte de areia na época de construção das represas no rio Jauru na década de 1990, então presenciei toda essa mudança no rio. Quando as comportas do rio Jauru fecharam, secou todo o rio para baixo e deu dó de ver as toneladas de peixes que morreram. Eu assisti isso de perto e dá uma dó imensa ver o que acontece. Não sei o que se passa na cabeça de políticos que aceitam acabar com a natureza, temos outras formas de ter energia. Os rios estão acabando e a seca tá cada ano mais severa. A água do rio Cabaçal nesse período não chega na cintura, é muito baixa. Sou totalmente contra as barragens que querem construir na nossa região, porque eu vi o estrago que elas causam no rio.”

Odair Monteiro da Rocha, proprietário de rancho às margens do rio Cabaçal. Foto: Fernanda Cano.

Só temos a largura do rio e a profundidade aqui no meio do rio está na minha cintura. Por isso, que vamos defender firmemente contra essa usina para não ser implantada, não é possível que a sociedade e os políticos da região vão permitir isso com o rio. Hoje, 15 de novembro de 2023, não há água no rio Cabaçal e não tem condições de ter seis represas, o rio não vai existir mais. Por isso, vamos defender e lutar pelo nosso rio Cabaçal”, relata Sérgio Olímpio. 

Sergio Olímpio, mobilizador local e proprietário de rancho às margens do rio Cabaçal. Foto: Fernanda Cano.

Ameaça de barragens

Localizado no estado de Mato Grosso (MT), o rio Cabaçal está sob ameaça de barramento em vários trechos com a construção de um “complexo hidrelétrico” de seis represas.

Fernanda Cano, analista de conservação da Ecoa, participou de reunião na Câmara de Vereadores do Município de Reserva do Cabaçal (MT), onde foi apresentado o projeto de lei que declara o trecho do rio Cabaçal nos limites do município como Monumento Natural e Patrimônio Histórico e Paisagístico, da mesma maneira que foi aprovada a lei municipal em Lambari d’Oeste (MT).

Os vereadores se pronunciaram a favor da aprovação da lei e contra as instalações das represas previstas no município de Reserva do Cabaçal. Contudo, sugeriram antes da votação na câmara, realizar uma audiência pública e dialogar com os vereadores do município de Araputanga, que também será impactado caso as represas sejam construídas. 

 

Talita Oliveira

Jornalista do Núcleo de Comunicação da Ecoa.

1 Comment

  1. Sou Nivaldir Cassemiro Filho, também sou contra essas represas, só trará prejuízo e danos para nosso meio ambiente,, o Rio cabaçal já muito baixo, com essas represas ficará ainda pior.

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