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Foco no cerrado

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Foto: Roberto Murta

Editorial Folha de São Paulo

O tema da preservação ambiental, no Brasil, sempre vai associado a desmatamento da Amazônia, fogo no Pantanal e a quase extinção da mata atlântica. Raramente vem à tona a defesa do cerrado, bioma que perdeu 8.531 km² da vegetação original em 2021, quase seis vezes a área do município de São Paulo.

O dado desanimador teve divulgação no último dia de 2021 pelo governo federal. Recorde que o governo Jair Bolsonaro retardou a divulgação de cifras de desmatamento na Amazônia na época da COP26.

Existe algo de preconceito nessa visão desfocada do cerrado, paisagem que domina o centro do país. Na estiagem, suas fisionomias campestres e florestais assumem aparência seca, um mosaico de capim, arbustos e árvores retorcidas não raro descrito como reles “mato”.

É o segundo maior bioma do Brasil, contudo, e o que se chama de “hotspot”: área de imensa biodiversidade sob grave ameaça. Metade do cerrado já foi destruída, ante um quinto da floresta amazônica.

A imagem de terra sem valor favoreceu a expansão imprevidente do agronegócio. Hoje a savana brasileira produz 55% da carne bovina, 49% da soja, 49% do milho, 98% do algodão e 47% da cana-de-açúcar, segundo a Embrapa Cerrados.

Foi uma façanha épica e tecnológica convertê-la no celeiro de grãos do país, a partir dos anos 1970. No entanto tal história de sucesso comportou boa dose de negligência com a devastação continuada.

Muito se fala que não seria preciso desmatar mais e que o aumento de produtividade daria conta de atender a demanda mundial. Fato é que a aquisição de áreas segue devastando o grande sertão das veredas, com destaque para a região conhecida como Matopiba.

Chegou a hora de pôr foco em ciência e tecnologia para melhorar o rendimento das terras já convertidas. A pesquisa também pode ajudar na disseminação de técnicas agrícolas —como sistemas agroflorestais e extrativismo de frutos do cerrado— mais compatíveis com a conservação do bioma.

Trio recente de reportagens na série Foco no Cerrado, publicadas em dezembro pela Folha, mostrou como babaçu, buriti e pequi, entre outros produtos regionais, estão melhorando a renda de agricultores familiares e fixando-os na terra.

O turismo ecológico é outra vocação do cerrado, como na Chapada dos Veadeiros. Suas cachoeiras só sobreviverão se o agronegócio entender que a preservação se faz também no seu interesse.

Alíria Aristides

Jornalista, Coordenadora do Núcleo de Comunicação da Ecoa e Mestranda em Comunicação pela Universidade de Mato Grosso do Sul

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