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A água sumiu, o peixe acabou e os impactos ficaram: comunidades denunciam danos causados por represas no rio Correntes

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“Me emociono falar da comunidade. Porque antigamente a comunidade Família Bispo era uma fartura. Nós tinha água abundante, nós tinha peixe no rio [Correntes]. Hoje nós não podemos falar o mesmo.”

O relato é de Ieda Bispo, presidenta da comunidade ribeirinha quilombola Porto dos Bispos, no município de Sonora (MS). Ela e Saulo Moraes, ribeirinho e pescador da comunidade Porto dos Preto (Itiquira/MT), denunciam em vídeo os danos ambientais e sociais causados pela barragem hidrelétrica Ponte de Pedra, instalada em 2005 no rio Correntes, um dos formadores do Pantanal.

Territórios tradicionais sob pressão

As duas comunidades tradicionais — Porto dos Bispos e Porto dos Preto, localizadas na divisa dos estados de MT e MS e separadas pelo rio — estão estabelecidas há cerca de um século na região do Correntes, com raízes em famílias oriundas de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). Ao longo de gerações, desenvolveram modos de vida sustentados pela pesca, agricultura familiar e turismo local, fortemente conectados à dinâmica do rio.

A implantação da represa no entorno das comunidades provocou a escassez de peixes e a perda do fluxo turístico, passando a comprometer diretamente a subsistência das famílias nos territórios. Além disso, os relatos apontam para a ausência de compensações sociais e ambientais adequadas.

“Hoje, devido à barragem, (…) nós não temos mais turista. Acabou os turistas, porque chega aqui no rio, não pega peixe, não tem peixe.” – relata Ieda.

Os impactos da UHE Ponte de Pedra — e de outras represas na bacia do Alto Paraguai — foram registrados pelo Ministério Público Estadual de Mato Grosso (MPE/MT), que constatou a degradação de serviços ecossistêmicos, alterações no regime hidrológico e perda da biodiversidade. Ainda assim, segundo as lideranças, as empresas retornam às comunidades apenas quando precisam renovar suas licenças ambientais.

“Nós somos pouquíssimas andorinhas que vamos batalhar até um dia o pessoal reconhecer que tem que modificar essa ideia de explorar, explorar, e não trazer nenhum benefício para a comunidade.” – Saulo Moraes

Acompanhamento e articulação

A Ecoa acompanha a situação desde 2018, realizando articulações com o Ministério Público, promovendo debates sobre os efeitos das hidrelétricas na região e apoiando alternativas de renda como tanques-rede para piscicultura. No entanto, as comunidades continuam enfrentando os mesmos problemas, com pouco ou nenhum avanço na reparação dos danos causados.

📽️ Assista ao vídeo completo com os depoimentos.

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