Em Nioaque (MS), famílias ligadas ao CEPPEC discutem rastreabilidade, Sistema de Controle Interno e valorização de práticas comunitárias que mantêm o Cerrado em pé e preparam a cadeia do baru para novos mercados.
É possível certificar um jeito de cuidar do Cerrado?
A pergunta parece incomum, mas ajuda a entender o que esteve no centro da reunião realizada nesta semana no Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado (CEPPEC), no Assentamento Andalucia, em Nioaque (MS). O encontro reuniu famílias produtoras/coletoras e equipe técnica da Ecoa para avançar mais uma etapa da certificação orgânica da cadeia do baru.
A certificação faz parte do projeto de cooperação internacional que conecta o CEPPEC, a Ecoa, a Bosques del Mundo (BDM) e a parceira comercial dinamarquesa NØDDEBAZZAREN, com foco no fortalecimento da cadeia produtiva da castanha de baru e na adequação da produção às exigências do mercado europeu.
No caso do CEPPEC, esse processo não começa do zero. A comunidade já construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma forma de produzir baseada no manejo do Cerrado em pé, na coleta responsável do baru, na organização comunitária e na geração de renda para famílias agricultoras e agroextrativistas.
O que a certificação busca agora é organizar e comprovar esse caminho.
Durante a reunião, Nathalia Ziolkowski, presidenta da Ecoa e coordenadora do projeto, explicou que o certificado não cria uma prática nova, mas ajuda a demonstrar, para compradores e consumidores, que a produção segue critérios reconhecidos de manejo orgânico, cuidado ambiental e responsabilidade social.
“Vocês já fazem muito do que é exigido pelo orgânico. O que estamos fazendo agora é organizar tudo isso para comprovar que a produção de vocês é orgânica”, destacou.
Um cuidado que já existe
A discussão sobre certificação passou por temas técnicos, como auditoria, registros de campo, identificação dos lotes e Sistema de Controle Interno (SCI). Mas também revelou algo que está na base do trabalho do CEPPEC: a escolha cotidiana de produzir sem veneno e manter o Cerrado vivo.
Durante o encontro, a agricultora Maria José lembrou que essa decisão nem sempre é simples, especialmente quando a cultura do uso de agrotóxicos ainda aparece como resposta imediata para qualquer problema na lavoura.
“Quando começou a florar, falaram pra mim: ‘tá na hora de passar veneno’. Mas não é isso. A gente não quer veneno. A gente quer alguma coisa natural. A gente está lutando para sair fora do veneno”, afirmou.
Essa escolha, feita no lote, na roça e no manejo diário, é parte do que a certificação orgânica ajuda a tornar visível. O selo que aparece no produto final depende de uma cadeia de cuidados que começa no território e acompanha cada etapa da produção.
No caso do baru, isso inclui manter as árvores em pé dentro dos lotes, conservar áreas de Cerrado, proteger nascentes, registrar a coleta, organizar o beneficiamento e garantir que a castanha possa ser rastreada desde sua origem até o consumidor.
Rastreabilidade e confiança
Um dos pontos centrais da reunião foi a rastreabilidade. Para que a castanha seja certificada, é preciso identificar de qual lote veio o fruto, quem realizou a coleta, como ele foi armazenado, beneficiado e preparado para comercialização.
Na prática, cada família passa a ter uma identificação dentro do Sistema de Controle Interno (SCI). Essa organização permite que o CEPPEC acompanhe o caminho do baru desde o campo até a agroindústria, garantindo transparência para auditorias, compradores e consumidores.
Nathalia explicou esse processo a partir de uma pergunta simples: diante de dois frutos aparentemente iguais, como saber qual deles é orgânico? A resposta não está na aparência, mas no caminho que aquele alimento percorreu.
“Tudo na cadeia da certificação é baseado na confiança. O primeiro laço de confiança são vocês, que estão lá no lote, dando essa garantia. Depois vem a auditoria, que verifica se tudo está conforme as regras”, explicou.
Esse sistema é especialmente importante no contexto da exportação. A parceira comercial dinamarquesa já conheceu a produção do CEPPEC em visitas ao território e reconheceu a qualidade do trabalho desenvolvido pelas famílias. A certificação, no entanto, oferece a comprovação formal exigida por mercados que priorizam produtos orgânicos, rastreáveis e produzidos com responsabilidade socioambiental.
Preparação para novos mercados
Para Rosana Claudina, a Preta, liderança histórica do CEPPEC, a certificação orgânica também deve ser compreendida como preparação para o futuro.
“A tendência mundial é alimentação saudável, livre de veneno. Se a gente se preparar para ter um produto livre de veneno, nós vamos ter mercado. Então, o que estamos fazendo aqui é uma preparação”, afirmou.
Preta também relacionou o processo à necessidade de fortalecimento comunitário diante das mudanças climáticas. Para ela, organização, coesão e preparo serão fundamentais para que as famílias consigam enfrentar os próximos anos com mais autonomia e segurança.
“É uma preparação, mas é uma garantia também de que esse pessoal lá fora saiba que esses alimentos que nós vamos produzir são saudáveis”, completou.
Do Cerrado à Dinamarca
O avanço na certificação orgânica integra uma etapa importante do projeto “Nuez de barú de familias locales del Cerrado brasileño a consumidores daneses”, desenvolvido com apoio da Bosques del Mundo (BDM). A iniciativa busca fortalecer a cadeia do baru a partir da sociobiodiversidade, conectando produção comunitária, conservação ambiental e mercados que valorizam alimentos de origem sustentável.
Em 2025, a autorização para comercialização da castanha de baru na União Europeia abriu uma nova possibilidade para comunidades produtoras do Cerrado. Desde então, o CEPPEC vem avançando em adequações técnicas, organização produtiva e articulações comerciais para que a castanha possa chegar ao mercado europeu com qualidade, rastreabilidade e reconhecimento da origem comunitária.
Para a Ecoa, que acompanha a trajetória do CEPPEC desde sua criação, a certificação orgânica representa uma etapa de amadurecimento da cadeia. Ela fortalece a posição das famílias produtoras, amplia possibilidades de renda e ajuda a demonstrar que o manejo do Cerrado pode gerar alimento, conservação e oportunidades econômicas.
No fim, certificar o baru é também reconhecer uma história coletiva, feita por famílias que aprenderam a transformar frutos nativos em renda sem derrubar o Cerrado. E que agora se organizam para mostrar esse cuidado a consumidores que talvez nunca pisem em Nioaque, mas poderão conhecer, por meio da castanha, um pouco do território que a produziu.











