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Projeto de restauração no Pantanal começa a transpor solo para região degradada pela mineração

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Caminhões transportam solo para área degradada pela mineração na APA Baía Negra. Foto: Luiza Rosa.

Mais uma etapa do projeto de restauração no Pantanal foi realizada na sexta-feira (11). Caminhões começaram a transportar solo para um sítio degradado pela mineração na Área de Preservação Ambiental Baía Negra, localizada no município de Ladário, Mato Grosso do Sul. Serão transpostos 200 metros cúbicos de solo por dia, até totalizar 14.000 metros cúbicos – que corresponde a dois campos de futebol – para restaurar a área degradada. A ação contou com a parceria da Secretaria de Infraestutura de Ladário.

Coordenado pela Ecoa, “Restauração estratégica e participativa: APA Baía Negra” é apoiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF Terrestre) com a intermediação do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e conta com a participação de pesquisadores, técnicos e de membros da própria comunidade da Área de Proteção Ambiental Baía Negra.

A transposição de solo foi acompanhado por Aires Alberto da Fonseca, técnico da secretaria de obras da Prefeitura de Ladário, e por Felipe Borges, técnico em restauração e doutorando em Ecologia, no Laboratório de Ecologia e Intervenção, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Aires da Fonseca, da Prefeitura de Ladário, e Felipe Borges, consultor do projeto de restauração, acompanham a transposição de solo que ocorreu na sexta-feira (11). Foto: Luiza Rosa.

Desde julho de 2021, a Ecoa vem desenvolvendo etapas do projeto. O objetivo é restaurar 51 hectares de áreas degradadas pela mineração, pela deposição de lixo e pela invasão biológica da leucena, espécie provinda da América Central, de acelerada propagação em ambientes alterados, que se instalou no país para atender ao setor agropecuário mas que, uma vez escapando do manejo racional, acaba por excluir outras espécies do ecossistema devido ao seu rápido crescimento e multiplicação. No próximo dia 28, a organização irá realizar a etapa de plantio de espécies nativas.

Morador da APA Baía Negra, João Assis, em meio a leucenas, atuando em sua poda. Foto: Luiza Rosa.

 

Curiosidade

O solo encontrado em algumas áreas da APA Baía Negra, o Chernossolo, é o mesmo encontrado em regiões da Ucrânia. Lá este tipo de solo é denominado Chernozem e é reconhecido como o de maior fertilidade natural em todo o mundo.

Chernossolo encontrado na APA Baía Negra. O mesmo tipo de solo é encontrado também na Ucrânia. Foto: Luiza Rosa.

Ele é extremamente fértil, tem PH elevado e alto acúmulo de matéria orgânica possuindo ainda excelente drenagem.

Apresenta alto potencial agrícola devido às características químicas de alta fertilidade natural (eutróficos) associada aos altos teores de cálcio, de magnésio e de matéria orgânica, baixa a mediana acidez e alta capacidade de troca de cátions relacionada à sua mineralogia.

Tanto na Ucrânia como no Brasil, o chernossolo provém de rochas calcárias ricas em nutrientes. No entanto, enquanto na Ucrânia a temperatura é amena, no Pantanal as temperaturas são altas e há alto provimento de água. Há grande produção de biomassa e boa drenagem. O que demonstra a possibilidade de formação de solos semelhantes sob condições distintas. No entanto, no pantanal, tal solo é raro, estando presente  em apenas 1% da região. Principalmente nos capões e cordilheiras.

Para saber mais sobre o chernossolo, leia este documento escrito pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

 

Restaurar não é somente plantar novas mudas

A Sociedade de Restauração Ecológica conceitua a restauração como a “atividade deliberada que inicia ou acelera a recuperação de um ecossistema observando sua saúde, integridade e sustentabilidade, o que requer restauração por ter sido degradado, danificado, transformado ou totalmente destruído direta ou indiretamente por atividades humanas.”

Para Felipe Borges, a restauração tem “múltiplos fatores, é um ecossistema de ideias de integração da comunidade, social, ambiental e economicamente a curto, médio e longo prazo, com intervenções ecológicas que irão recuperar o ambiente.”. Segundo ele, pensando em técnicas para restaurar um ambiente, podemos escolher o plantio de mudas, a transposição de solos, podemos perceber que é preciso apenas cercar uma área, que o ambiente é capaz de se regenerar, podemos semear o capim nativo.

Na questão social, trata-se de trazer a comunidade que vive na região, para oferecer um modo sustentável de uso dos recursos, isso pode ser feito por meio de oficina de troca de saberes, trazendo a comunidade para trabalhar nas práticas de restauração.

Na dimensão econômica, visa-se pela sustentabilidade também. Se se está trabalhando com agricultores, por exemplo, que exploram uma área que está ambientalmente degradada, pode-se trabalhar com sistemas produtivos mais sustentáveis. Melhorar as práticas produtivas na região também é restauração.

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