Atores da pesca no Pantanal precisam ser reconhecidos, diz pesquisador

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Agostinho Catella durante a palestra para representantes do setor de pesca (Foto: Aiesca Pellegrin)
Agostinho Catella durante a palestra para representantes do setor de pesca (Foto: Aiesca Pellegrin)

Agostinho Catella, pesquisador da área de recursos pesqueiros da Embrapa Pantanal (Corumbá-MS), disse nessa quarta-feira (16) que um dos grandes desafios para a gestão da pesca na região é o reconhecimento do papel dos diferentes atores que se dedicam à atividade. Ele participou como palestrante do evento Rota de Desenvolvimento, promovido pelo Governo do Estado de Mato Grosso do Sul no Centro de Convenções do Pantanal (Sesc Corumbá).

O objetivo do evento é estimular novas iniciativas e apoiar pequenos negócios por meio de capacitação. No caso da pesca, a Rota do Desenvolvimento buscou estimular o debate para colher subsídios que propiciem a definição de políticas para o setor e para criação de uma nova lei de pesca no Mato Grosso do Sul com foco na sustentabilidade. De fato, muitos atores que se manifestaram após a palestra destacaram que a atividade precisa ser organizada para o melhor uso e conservação dos recursos pesqueiros.

Catella começou com uma contextualização sobre o ambiente, a fauna de peixes e a pesca no Pantanal. Considerou que a pesca depende não apenas das decisões de manejo, tais como petrechos e épocas de pesca permitidos, cotas de captura etc, mas também de fatores ambientais como a intensidade das inundações anuais. “Por isso, precisamos estar cientes que, naturalmente, há períodos mais favoráveis e menos favoráveis para as populações de peixes e, consequentemente, para a pesca.”

O pesquisador lembrou, ainda, que a conservação do ambiente é preponderante para a pesca, pois “os rios são os receptáculos finais de todas as atividades humanas que ocorrem numa região”. Segundo ele, apesar de a região contar com cerca de 270 espécies conhecidas, 170 delas têm menos de 20 cm, o que corresponde a um percentual acima de 60%. As espécies de grande porte (entre 40 cm e 1,5 m), mais atrativas, são o foco principal da pesca, mas representam apenas 16% do numero total de espécies.

De acordo com o pesquisador, a atividade praticada no Pantanal envolve diversos atores: pescadores profissionais artesanais, de subsistência, populações indígenas e tradicionais, pescadores recreativos e setor turístico pesqueiro, além das pisciculturas que se utilizam dos reprodutores obtidos no ambiente natural. “Uma política pesqueira para o Estado exige reconhecer o papel de cada um deles e suas expectativas”, afirmou.

A iniciativa da Rota do Desenvolvimento é justamente iniciar um diálogo para contemplar diferentes expectativas e, ao mesmo tempo, garantir a sustentabilidade da pesca na região. “Trata-se de um movimento pró-ativo que procura o diálogo entre os atores para construir uma plataforma comum e atender aos interesses dos usuários”, avaliou o pesquisador. O mecanismo permitirá compartilhar a gestão da pesca entre os diversos agentes.

Desafios

Agostinho Catella falou também de outros desafios. Dividir o esforço pesqueiro sobre um maior número de espécies é um deles. Segundo ele, é preciso utilizar também as espécies de médio e pequeno porte que são abundantes e que atualmente estão subaproveitadas. Os pescadores profissionais que se dedicarem à captura dessas espécies vão diminuir o esforço sobre as espécies de grande porte, consideradas nobres. “Ao mesmo tempo, estes pescadores vão poder oferecer um pescado mais barato para a população”, falou Agostinho, citando o curimbatá como exemplo. “Contudo, é preciso definir as normas de pesca adequadas para essas pescarias”, considerou. Atualmente, apenas três espécies de médio porte são mais utilizadas, as piranhas, a piraputanga e o curimbatá, este último apenas pelos pescadores recreativos.

O pesquisador relatou algumas iniciativas já experimentadas na região para estimular a pesca e o consumo de outras espécies. Entre 1997 e 1998, por exemplo, o peixe foi introduzido na merenda escolar de duas escolas públicas de Corumbá. O projeto contabilizou o beneficiamento de 650 quilos de barbado e de 1.340 quilos de piranha, oferecidos sob diferentes preparações. O consumo de peixe por aluno, por refeição foi de 80 gramas. A iniciativa contou com ótima aceitação por parte dos estudantes.

Na década seguinte, em 2006, outro projeto procurou estimular o turismo cultural de pesca, unindo dois atores desse universo: o pescador profissional artesanal e o amador. Passeios foram testados com pescadores amadores, que puderam vivenciar a atividade e conhecer a rotina dos pescadores artesanais da região. Ao final, 90% dos pescadores amadores envolvidos na iniciativa consideraram a proposta muito boa e boa e todos recomendariam o passeio para outras pessoas.

Catella afirmou que a atividade pesqueira desempenha a função de “conservação pelo uso” dos recursos pesqueiros. Para isso, comparou a pesca com o uso de um imóvel. “Se a gente tem uma casa para alugar e a deixa fechada, ela vai se deteriorar com o tempo pela ação dos insetos, morcegos, mofo etc. Se ela for alugada para um inquilino responsável, que cuida dela, estará sempre conservada.”

O pesquisador acrescentou ainda que a região tem potencial para agregar valor ao pescado, seja por meio do beneficiamento do peixe (com a produção de alimentos, como hambúrguer, patê, quibe, linguiça, entre outros, cujas tecnologias já foram desenvolvidas pela Embrapa Pantanal), seja através da “certificação” de produtos oriundos da pesca, para atender a um nicho de mercado mais exigente.

A Rota do Desenvolvimento aconteceu de 15 a 17 de março em Corumbá e discutiu diversos temas de interesse para pequenos empreendedores.

Fonte: Embrapa Pantanal

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