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Frutos da Terra: a produção sustentável feita por mulheres do Pantanal e Cerrado

17 minutos de leitura

A Terra é o que sustenta cada ser vivo. É nela que a humanidade está apoiada e é a partir dela que se obtém os recursos que permitem a manutenção da vida. É fácil esquecer essa dependência devido ao ambiente urbanizado, mas em locais como as comunidades tradicionais essa relação é percebida diariamente.  

Nas comunidades onde a Ecoa atua, são elaborados produtos a partir da Bocaiuva, Laranjinha de Pacu, Aguapé, Acuri, Jaracatiá, Baru e Mel. O trabalho é feito em especial por mulheres dessas comunidades. 

Ao longo dos anos e com apoio de diversos parceiros, a Ecoa atuou para aprimorar o trabalho com frutos nativos. Com intuito de fortalecer e articular as mulheres que trabalham com produtos da sociobiodiversidade, em 2015 foi criada a Rede de Mulheres Produtoras do Pantanal e Cerrado

O extrativismo sustentável e o trabalho com produtos da sociobiodiversidade agrega renda para diversas famílias, além de incentivar o protagonismo dessas comunidades. Além disso, é fundamental para promover a conservação do meio ambiente.

 

Apicultura: a organização que superar o ser humano

No assentamento Bandeirantes mora a dona Cida, Aparecida Krawieck para alguns. Junto com sua irmã ela cuida de um apiário de 22 colmeias.  

O Assentamento é formado por 63 famílias. Parte dessas famílias trabalham com o gado de corte e o restante atua com produtos agrícolas. Um produto produzido na comunidade é o mel. Há quatro apicultores no local.  

“Temos 22 colmeias [Cida e sua irmã]. Começamos em 2016 com 4 colmeias e hoje estamos com 22. Tem o outro produtor que é o senhor Daniel e me parece que ele está com 10 colmeias. Tem a Sônia que me parece que está com 10 colmeias também”. 

Foto: Victor Hugo Sanches

No período em que não há florada, Cida e sua irmã alimentam as abelhas para que estas se desenvolvam. Durante outubro e novembro que o mel começa a ser colhido. 

Cida sempre quis trabalhar com abelhas e em 2016 seu desejo se realizou. Ela conta que André Luiz Siqueira, diretor-presidente da Ecoa, entrou em contato para saber se havia mulheres na região que gostariam de trabalhar com apicultura. A comunidade recebeu um treinamento de três meses sobre apicultura. Foi então que Cida aprender diversas coisas sobre a polinizadora que tanto admira.  

 

Dona Cida conta que “até então não sabia o que significava abelha, o que elas faziam. Aprendi bastante coisa”. 

Cida se encanta com a dinâmica das colmeias e divide seu conhecimento com empolgação. Para ela, as polinizadoras são mais organizadas que seres humanos. A apicultora comenta sobre o período de colheita do mel. 

“Não é fácil, tem que ter dedicação e tem que gostar do que faz”, declara a apicultora.  

Acuri: resistência e empoderamento feminino 

Às margens do rio Paraguai está localizada a comunidade Porto Esperança, onde vivem 53 famílias e entre elas está Natalina Mendes. A maioria da comunidade é composta por pescadores, isqueiros e piloteiros. 

 

Natalina: liderança na comunidade Porto Esperança (Foto: Luana Campos)

Em 2018, surgiu a Associação de Mulheres para fortalecer a união feminina e agregar renda para essas mulheres. Essas mulheres encontraram na terra, mais precisamente às margens do rio onde cresce o acuri, o recurso para se empoderarem.  

Natalina comenta sobre o trabalho com o acuri. “O acuri é gostoso de trabalhar, não é um produto difícil, mas é cansativo. Pra dar 1kg de farinha precisava trabalhar 2 cachos de acuri. Tinha que ralar bastante pra sair 1kg do produto”. O produto depois de recolhido é desidratado no forno e em seguida a farinha é produzida.  

Nos últimos anos, Porto Esperança foi palco de grandes queimadas, o que afetou a cadeia produtiva do Acuri, já que os acurizais foram queimados. Atualmente a comunidade está trabalhando com a mandioca. 

“A Associação teve que encontrar outro produto para trabalhar devido aos desastres do fogo que ocorreram no Pantanal. Isso destruiu os acurizais, então hoje estamos fazemos a farinha de mandioca”. 

A polpa do Acuri é rica em provitamina A, cobre, magnésio e potássio, que auxilia no controle da pressão arterial e prevenção de doenças cardíacas. Já a amêndoa está repleta de fósforo e ferro. O fruto tem um sabor levemente adocicado e sua farinha potencialmente pode substituir a farinha de mandioca em diversos pratos. A partir do Acuri é possível produzir polpa desidratada, farinha e amêndoa.  

Baru: a castanha do cerrado 

Nas terras do Cerrado cresce o fruto que agregou renda para o Assentamento Andalucia. O assentamento, localizado em Nioaque-MS, foi instituído em 1996 e a região foi dividia entre 164 famílias.  

O baru chegou na comunidade por meio das crianças que comiam o fruto. Os pequenos eram repreendidos pelos pais, pois estes achavam que poderia fazem mal para a saúde. Mas em 1997 alguns acadêmicos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul mostraram para a comunidade que era possível utilizar o fruto. Foi então que Rosana, ou Preta, tornou-se extrativista. 

Preta é uma das lideranças do Assentamento Andalucia

 

O fruto é extraído de forma sustentável. “O extrativismo sustentável consiste em incorporar práticas que respeite o ciclo da natureza, considere o trabalho humano e não escravista. Com remuneração justa em todos os elos da cadeia de valor”, explica Preta.  

A amêndoa do baru é rica em lipídios, proteínas, zinco, cobre, ferro, fósforo, potássio, magnésio e manganês. Pode ser usada para combater anemia e melhorar o sistema imunológico. A castanha do baru poder ser consumida in natura ou torrada. É a partir da castanha que alguns doces de corte, rapaduras, pães, cookies e molhos podem ser produzidos.  

Foto: Arquivo Ecoa

Bocaiuva: o sabor do Pantanal 

Há 35km de Corumbá está localizada Antônio Maria Coelho e é lá que a cadeia socioprodutiva da bocaiuva é trabalhada. A partir do fruto é possível produzir farinha, chips, amêndoa torrada, rapadura, geleia, pão, bolo e barra de cereal.  

A polpa da bocaiuva está repleta de vitamina A, além do cobre, potássio e zinco. O fruto também pode ser consumido diretamente, sem a necessidade de processamento em outros produtos.  

Uma das extrativistas da região é a dona Edil que relata que “o trabalho, com o fruto bocaiuva é muito importante para agregar na renda familiar e viver com mais dignidade e qualidade de vida”.  

 

Edil Corrêa, extrativista e moradora da comunidade Antônio Maria Coelho (Foto: Manuela Nicodemos)

Dona Edil se envolveu com a cadeia socioprodutiva ao observar outras mulheres que trabalhavam com o fruto. Quando percebeu que ambos eram desvalorizados, ela decidiu investir “para adquirir as informações nutricional pois precisava saber o que estava vendendo e também através desse conhecimento, melhorar a fonte de renda familiar”.   

Comunidade centenária Antonio Maria Coelho é referência na produção derivada da bocaiuva (Créditos: Alíria Aristides – Arquivo Ecoa)

Laranjinha de Pacu: o conhecimento por meio dos pequeninos 

A comunidade Porto da Manga está localizada no município de Corumbá, às margens do rio Paraguai. Além de atividades como a pesca e coleta de iscas, algumas das moradoras do local trabalham na cadeia socioprodutiva da laranjinha de pacu. 

A laranjinha chegou na vida de dona Elizete, ou apenas Zezé, por meio das crianças. Os pequenos tinham o costume de comer o fruto e isso chamou a atenção da pescadora. Com um trabalho da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) para descobrir os frutos do pantanal que poderiam ser utilizados na culinária, a comunidade aprendeu a transformar o fruto em geleia.  

Zezé e a laranjinha de pacu

 

“Trouxeram a geleia pra nós, mas de outra maneira. Eu peguei e tentei fazer e deu certo do jeito que fiz. Passei a dar para as pessoas experimentarem” relata dona Zezé.  

A laranjinha é rica em vitamina C, além de ser antioxidante e ter alta concentração de ferro e cobre. É utilizada na prevenção de anemia. A polpa e geleia são os produtos derivados do fruto.  Com as queimadas e a seca, a cadeia socioprodutiva da laranjinha de pacu foi prejudicada.

Jaracatiá: o doce da raiz 

Às margens do Rio Paraguai também se encontra a Área de Preservação Ambiental Baía Negra. Na região é trabalhada a cadeia socioprodutiva da Jaracatiá, uma raiz adocicada e suave. O produto possui vitamina A, C e E, além de ser antioxidante e rico em fibras. A raiz é usada no preparo de doces em calda, rapadura e geleia.  

Uma das pessoas que faz parte da Associação de Mulheres Produtoras da APA é a dona Virgínia Justiniano Paz . “Quando vimos aquela raiz enorme que às vezes tem que ser 2 ou 3 pessoas pra carregar, ficamos curiosas pra saber como seria pra manusear e retirar. Hoje temos todo aquele cuidado pra retirar a raiz pra não matar a árvore que é enorme”, ela comenta.  

 

Dona Virgínia. Foto: Raquel Alves / Arquivo Ecoa

 Para trabalhar com o jaracatiá é preciso realizar a extração da raiz da árvore, por isso é preciso cautela e técnicas específicas para não destruir a espécie.  

“Trazer a raiz para a cozinha foi uma experiência muito boa e está sendo uma produtividade dentro da nossa comunidade e isso pra gente é satisfatório”, relata dona Virgínia.

Aguapé: o rio que leva e traz 

Na região da Serra do Amolar, na fronteira oeste do Pantanal, está a comunidade da Barra de São Lourenço. A comunidade tradicional é formada por pescadores, isqueiros e artesões, o que evidencia a íntima relação com as águas. O rio é o transporte e sustento da comunidade. “O rio é o que nos leva e o que nos traz. A água para nós é vida”, afirma dona Leonida Aires, pescadora e artesã.  

É nas águas do rio Paraguai que cresce uma planta essencial para a renda de algumas famílias: o aguapé. A planta aquática é abundante no Pantanal e é usada no artesanato local. A partir do caule que são feitas peças como chapéu, mochila, bolsa, suportes, tapetes, centros de mesa, cortina, esteira, cabeceiras de cama. 

 

Dona Leonida Aires (Foto: Fabio Pelegrini) 

A prática possui origem indígena. Foi ensinada e incentivada por Catarina Guató, anciã da comunidade, e é repassada para as novas gerações que “devagarinho vão aprendendo e fazendo”, de acordo com Leonida. Atualmente, seis mulheres sabem e trabalham com a técnica do artesanato. As artesãs saem para coletar aguapé ao longo das águas do rio Paraguai, a planta é lavada e colocada para secar. A secagem depende do sol e leva de três a cinco dias. Após a seleção de tamanho e grossura dos talos, as tranças são feitas para que as peças sejam elaboradas.  

A cadeia socioprodutiva do aguapé auxilia diversas mulheres na autonomia econômica e no sustento de suas famílias. “A gente está na luta pela sobrevivência, pela continuidade de nossa família”, diz Leonida. 

 

Para saber mais, acesse o Catálogo Cerrapan 

Raquel Alves

Estudante de jornalismo e estagiária da Ecoa

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