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Raízes do Cerrado: mulheres que defendem o bioma e constroem caminhos de liderança

9 minutos de leitura
Dielen Dielen Costa, indígena do povo kinikinau

Formação reuniu 41 mulheres de diferentes regiões do Cerrado e fortaleceu redes de atuação, incidência política e defesa dos territórios

O Cerrado é o coração das águas do Brasil. De suas paisagens de savanas, veredas, campos e matas nascem rios que abastecem grande parte do país e sustentam uma biodiversidade reconhecida mundialmente. Mas existe também outra rede fundamental para a sobrevivência desse bioma: a das mulheres que vivem, trabalham e defendem esses territórios.

Esse foi um dos elementos que deram origem ao processo formativo Mulheres Líderes pelo Cerrado, que reuniu 41 mulheres de diferentes regiões do bioma em um percurso coletivo de formação, troca de experiências e fortalecimento político.

Ao longo da jornada, o projeto se consolidou como um espaço de encontro entre trajetórias diversas, conectadas pela defesa do Cerrado, pelo reconhecimento do papel das mulheres na gestão dos territórios e pela ampliação de sua participação em espaços de decisão.

A iniciativa integra o projeto “Equidade de gênero e justiça socioambiental para a conservação do Cerrado, Brasil: formação de mulheres líderes”, executado pela Ecoa, com apoio do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF) e do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB).

Formação para fortalecer vozes e territórios

Durante o processo formativo, as participantes discutiram temas que atravessam diretamente suas realidades, como conservação ambiental, direitos territoriais, participação política, produção sustentável e equidade de gênero.

A proposta foi ir além da transmissão de conteúdos técnicos. O objetivo era fortalecer a capacidade de atuação dessas mulheres em seus próprios territórios, reconhecendo suas experiências e saberes como parte essencial das soluções para os desafios ambientais e sociais do bioma.

Muitas das participantes destacam que a formação ampliou sua compreensão sobre os impactos que o Cerrado enfrenta atualmente – incluindo o avanço do desmatamento e as pressões sobre territórios tradicionais – ao mesmo tempo em que fortaleceu a percepção de seu próprio papel como lideranças comunitárias.

A força de uma rede de mulheres

Um dos resultados mais marcantes do processo foi a construção de uma rede de mulheres conectadas pela defesa do Cerrado.

Ao longo dos encontros, participantes de diferentes regiões e realidades do bioma compartilharam experiências, desafios e estratégias de atuação em seus territórios. Esse intercâmbio permitiu que histórias individuais se transformassem em aprendizado coletivo.

Nos relatos das cursistas, aparece com frequência a importância desse espaço de troca. Muitas destacam que o contato com mulheres de outras regiões do bioma ampliou suas perspectivas e reforçou o sentimento de pertencimento a uma rede maior de atuação.

Mais do que uma formação pontual, o processo ajudou a consolidar vínculos que podem seguir se desdobrando em articulações futuras.

Da formação à incidência política

Os impactos da iniciativa também começaram a se refletir em espaços institucionais.

Um dos exemplos foi a participação da cursista, Carmem Lucas Vieira, agrônoma e ambientalista, em uma sessão da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados, contribuindo para o debate sobre um projeto de lei relacionado ao cuidado climático. A presença de mulheres do Cerrado nesse tipo de espaço representa um passo importante para aproximar as políticas públicas das realidades vividas nos territórios.

Esse tipo de participação mostra que processos formativos podem ter efeitos que vão além do âmbito individual, ampliando a presença de lideranças locais em debates que influenciam diretamente o futuro do bioma.

Conservação e equidade caminham juntas

Outro aspecto central da iniciativa é a forma como ela conecta agendas que muitas vezes são tratadas separadamente: conservação ambiental, justiça social e igualdade de gênero.

Em muitas comunidades do Cerrado, são as mulheres que desempenham papéis fundamentais no cuidado com a terra, a água e a biodiversidade, seja na produção de alimentos, na transmissão de conhecimentos tradicionais ou na organização comunitária.

Reconhecer esse protagonismo é também reconhecer que a conservação do bioma passa necessariamente pelo fortalecimento dessas lideranças.

Histórias que viraram filme

As vozes e experiências dessas mulheres também ganharam forma no curta-metragem “Raízes do Cerrado”, produzido como parte das ações do projeto.

Com cerca de 17 minutos de duração, o filme reúne relatos de mulheres que vivem em diferentes territórios do bioma e compartilham suas experiências, desafios e formas de relação com a natureza.

O resultado é um retrato sensível e ao mesmo tempo político da relação entre mulheres, território e conservação — mostrando que a defesa do Cerrado passa também pela valorização de quem vive e cuida dessas paisagens.

📽️ Assista ao curta “Raízes do Cerrado”

Um futuro que nasce das raízes

Fortalecer lideranças femininas no Cerrado não é só uma questão de equidade. É também uma estratégia fundamental para o presente e futuro do bioma.

Ao reunir 41 mulheres, estimular redes de colaboração e ampliar a presença dessas lideranças em espaços de debate público, o processo Mulheres Líderes pelo Cerrado aponta caminhos para uma conservação que nasce dos territórios e das pessoas que vivem neles.

Porque defender a natureza também significa fortalecer as vozes que historicamente cuidam dela.

Sobre o CEPF

O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, da União Europeia, da Fundação Hans Wilsdorf, do Fundo Global para o Meio Ambiente, do Governo do Canadá, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Um de seus objetivos centrais é fortalecer o papel da sociedade civil na conservação da biodiversidade.

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