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Baru, fruto que inspira conexão com a terra

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Em meio a exuberantes paredões de pedras e cercado pela pecuária se encontra a comunidade quilombola Furnas da Boa Sorte. Junto com técnicos do Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado (CEPPEC) visitei a comunidade para a articulação do projeto  Cadeia Socioprodutiva do Baru: agregando renda às famílias agroextrativistas no Mato Grosso do Sul e a proteção do Cerrado. Por meio da Castanha do Cerrado, algumas famílias encontram o empoderamento e uma fonte de renda. Há alguns meses experimentei as belezas do Pantanal e dessa vez foi o momento de experimentar as riquezas do Cerrado. 

O território da comunidade está localizado no município de Corguinho (MS) e é composto por três fazendas: Boa Sorte, Café e São Sebastião. Os primeiros moradores migraram de Minas Gerais em Carros de Boi. Ao chegarem na região, passaram a trabalhar com coronéis, até que um deles falou para a comunidade escolher um local para se estabelecerem. Assim, Furnas da Boa Sorte foi fundada. Todo esse histórico foi compartilhado conosco pelo senhor Valdeli.   

Valdeli nos contou sobre a história de fundação da comunidade

Atualmente existem 60 famílias morando na região e a principal fonte de renda vem do trabalho fora da comunidade. Alguns trabalham com construção civil, diarista e trabalhos em fazenda, enquanto outros atuam com pecuária leiteira dentro do território.  

Infelizmente não conseguimos andar pela comunidade, mas promessas de um retorno, apenas para aproveitar a beleza da região, foram feitas. Durante nosso curto tempo na comunidade, conhecemos Elaine. Mulher, mãe, quilombola e liderança. Com um sorriso amplo e seu bebê no braço, Elaine nos acolheu e participou da troca de conhecimento com os técnicos do CEPPEC e da Ecoa que estiveram na viagem.  

Elaine nos recebeu com um sorriso caloroso

 

A comunidade também é extrativista do baru, a famosa castanha do Cerrado. Alguns já usavam o fruto em alimentos, como a rapadura. Com a vinda de alguns projetos, como coleta de sementes e frutos do cerrado, os moradores passaram a conhecer mais a cadeia socioprodutiva do fruto.  

Falando em baru, nessa viagem tive a companhia de dois fissurados pelo fruto. Altair e Adriel apontavam a cada pé de baru que passava durante o trajeto. Fizemos até uma parada no meio da viagem para coletar alguns barus próximos à rodovia. Assim como alguém apaixonado pensa em sua fonte de paixão constantemente, os dois frequentemente veem e pensam no baru. Foi esse entusiasmo pela castanha do Cerrado que me cativou e me levou a refletir sobre o quão relevante o fruto e sua cadeia socioprodutiva são.  

Uma parada foi feita durante o trajeto para coletar baru

Por vezes esquecemos que é possível trabalhar em conjunto com o ambiente, conciliando o respeito pela natureza e a extração de fontes de renda. Fomos condicionados ao pensamento de que não é viável viver da terra, é necessário grandes centros urbanos ou grandes máquinas e processos industrializados para a sobrevivência.  

Ailton Krenak uma vez disse “a ideia de que nós, os humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos”. O pensamento de Krenak e meu tempo dentro da Ecoa me faz refletir que parte da humanidade se desconectou da terra. Altair comentou algo que me marcou durante a viagem. Às vezes nas comunidades tradicionais os jovens não dão continuidade ao trabalho ali feito, pois consideram que a vida está apenas nos centros urbanos.  

Veja também: Cadeia Socioprodutiva do Baru

Comunidades tradicionais possuem uma relação particular com a terra. Essas comunidades lutaram e ainda lutam por seu espaço e por seu direto a um território, por isso a interação com o espaço é algo pessoal. O extrativismo do baru faz com que essas famílias se conectem mais ainda com seus territórios, pois é de algo que está em seu espaço que elas podem gerar renda. O empoderamento desses povos, a conexão com seus territórios e a independência econômica foram os efeitos que notei a partir do trabalho com o baru.  

Com essa viagem pude observar que por trás da farinha feita com baru, dos pães e bolos há muito mais. Há uma trajetória de empoderamento, respeito com a natureza e conexão com o território 

Raquel Alves

Jornalista do núcleo de comunicação da Ecoa e comunicadora do projeto restauracción

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