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Mudanças climáticas podem acabar com hidrelétricas?

Devido a fortes secas, usinas mundo afora estão ficando sem água. Ao mesmo tempo, países como o Brasil planejam construir mais represas, sendo duramente criticados por ambientalistas

Hidrelétrica no rio Correntes. Situação também acompanhada pela Ecoa (Foto: Arquivo Ecoa)
Publicado em 14 de março de 2018 às 18:05 Compartilhar:

Via DW

Há mais de um século a água é usada mundo afora para gerar eletricidade. A energia hidrelétrica é hoje responsável por cerca de 70% da produção renovável de eletricidade e por mais de 15% do total de energia elétrica gerada no mundo. Ela é relativamente barata e, ao contrário da energia solar e eólica, pode produzir eletricidade sob demanda.

Ao mesmo tempo, a construção de represas para a produção energética remodelou sistemas ecológicos, inundou paisagens e forçou milhões de pessoas a abandonar suas casas. E agora a energia hidrelétrica enfrenta um problema adicional: devido às mudanças climáticas, alguns países estão vivenciando fortes secas, e os reservatórios de água estão secando.

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Faz sentido construir novas hidrelétricas?

Apesar da incerteza sobre o futuro climático do planeta, reservatórios ainda estão sendo construídos mundo afora. O Brasil planeja construir várias represas, incluindo mais de 40 na Bacia do Tapajós – um dos lugares de maior biodiversidade do planeta. O projeto foi alvo de duras críticas por seu impacto na vida selvagem local e nas populações indígenas.

Segundo o Greenpeace, com a queda da produção hidrelétrica em muitos países, o projeto no rio Tapajós se torna ainda mais questionável. “Por que um país cuja segurança energética já está comprometida pelo excesso de dependência da energia hidrelétrica tem como objetivo aumentar ainda mais essa dependência?”, lê-se num relatório da organização de proteção ambiental.

Em vez disso, o Greenpeace propõe uma combinação de energia eólica, solar e biomassa, que, no longo prazo, seria uma forma mais barata e mais eficiente, bem como muito menos destrutiva de produção energética.

Pesquisadores do Reino Unido afirmam que se todos os atuais planos para construção de novas usinas hidrelétricas no leste e sul da África forem cumpridos, o risco de escassez de energia pode aumentar, já que quase todos os países da região dependem da mesma precipitação escassa e todos sofreriam ao mesmo tempo uma queda na geração energética.

Mesmo assim, especialistas como Michael Taylor, analista sênior da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena), disseram à DW que o continente africano ainda possui um grande potencial hidrelétrico e que, com uma demanda tão alta por energia renovável, isso não pode ser ignorado.

“Há um enorme déficit energético na África, e não podemos descartar opções se quisermos superar o subdesenvolvimento”, disse Mukarakate, do Pnud. É importante, no entanto, que os projetos considerem as futuras mudanças no clima regional e ponderem os tipos de instalações que serão mais eficientes.

Energia hidrelétrica: uma peça do quebra-cabeça

Ao mesmo tempo, há espaço para o desenvolvimento de algumas hidrelétricas reversíveis, apontou Hernández. São usinas que podem gerar energia elétrica de forma convencional – por meio da queda de água de um reservatório situado em nível mais elevado para outro mais baixo – ou armazenar água em nível mais elevado, por meio do armazenamento bombeado, ou seja, o bombeamento da água de um reservatório mais baixo para outro mais alto, quando houver excedente energético.

Então, quando a energia é necessária, a água é liberada novamente. Essa é uma forma de abordar um dos problemas da energia renovável – o armazenamento –, explicou Hernández. O armazenamento bombeado é uma forma de converter o excedente energético em energia potencial e novamente em eletricidade, sob demanda.

Taylor, da Agência Internacional de Energia Renovável, afirmou que a energia hidrelétrica não deve ser vista como uma alternativa a outras energias renováveis, mas como um complemento a elas, tornando o sistema energético mais eficiente e o fornecimento de energia elétrica mais seguro.

O futuro do sistema energético tem que ser renovável, mas ainda é necessário preservar um mix saudável de diferentes fontes de energia, apontou Mukarakate.

Em última análise, especialistas destacam um abastecimento energético mais ecológico como a solução para o futuro, pois quanto mais cedo se parar de queimar combustíveis fósseis, mais estável será o clima do planeta.

Ecoa e a agenda Infraestrutura e Energia

Hidrelétrica no rio Correntes. Situação também acompanhada pela Ecoa (Foto: Arquivo Ecoa)

Hidrelétrica no rio Correntes. Situação também acompanhada pela Ecoa (Foto: Arquivo Ecoa)

A Ecoa acompanha  instituições que financiam o desenvolvimento por entender que seus investimentos devem seguir parâmetros de proteção ambientais e sociais rígidos. Neste sentido, acompanha o financiamento de obras de infraestrutura e energia, para garantir que não degradem o ambiente e não tragam problemas sociais como o deslocamento de populações.

Em 2017, a equipe da Ecoa elaborou um Mapa Interativo que identifica todas as represas construídas, em construção e planejadas para a Bacia do rio Paraguai. Estas afetam comunidades ribeirinhas e tradicionais, famílias de pescadores que sobrevivem dos rios. Um dos casos mais emblemáticos é o do rio Jauru, onde famílias são altamente impactadas devido a 6 hidrelétricas (1 UHE e 5 PCHs) e, mais recente, com a PCH Estivadinho 3, em planejamento.

A situação é acompanhada por uma equipe multidisciplinar da Ecoa.

 

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