Paisagem Modelo: um caminho para trocas sustentáveis

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Senho Alonso é um dos moradores do assentamento 72
Paisagem Modelo é uma alternativa para o manejo sustentável da natureza pelos múltiplos grupos que coexistem com esta. Nesse texto você irá entender um pouco melhor a relevância por trás dessa plataforma social de governança.

 

Não podemos existir sem o meio ambiente, mesmo que o contrário seja possível. Entretanto, enquanto a natureza nos fornece riquezas, apenas tiramos sem oferecer nada em favor. 

A vida é uma série de relações e relações exigem trocas. Uma relação em que apenas um lado se doa está fadada ao fracasso. Mas você pode estar se pergunto qual o propósito de tais reflexões. Calma, vamos chegar lá. Relacionar-se com o meio ambiente pede por sustentabilidade e dessa forma é possível garantir a vida a longo prazo. Ao passar dos anos o ser humano modificou a forma como se relaciona com a terra e para satisfazer demandas momentâneas acaba esquecendo das consequências a longo prazo. Tal forma de se relacionar com a natureza não se sustenta futuramente, por isso são necessárias formas alterativas de interagir com o ambiente. A Paisagem Modelo surge como uma proposta para permitir essa relação mais harmoniosa entre os seres e o ambiente em que habitam. De forma respeitosa e consciente, levando em consideração questões ambientais, sociais e econômicas para todos os envolvidos na área da Paisagem.  

Mas antes de entender como a Paisagem Modelo pode promover essa relação harmoniosa entre pessoas e natureza é necessário falar sobre o que significa a palavra “sustentabilidade”. 

Constantemente ouvimos tal termo, principalmente no cenário atual de mudanças climáticas e eventos extremos em que fica claro a necessidade de olhar e zelar pela natureza em sua totalidade. O dicionário define sustentabilidade como a “capacidade de criar meios para suprir as necessidades básicas do presente sem que isso afete as gerações futuras, normalmente se relaciona com ações econômicas, sociais, culturais e ambientais”.  

Tratar do sustentável exige uma visão transversal. Zelar pela natureza levando em consideração apenas aspectos ambientais é limitar a complexibilidade da vida. Assim, a Paisagem Modelo propõe justamente essa visão transversal entre todos os seres presentes no ambiente.  

A área da Paisagem Modelo Pantanal está localizada em uma região estratégica para a conservação por contar com diversidade de fauna, flora e grupos sociais

Leia também: Paisagem Modelo Pantanal região estratégica para conservação

Paisagem Modelo e seu conceito 

A Paisagem Modelo é um meio para realização de ações inovadoras e sustentáveis. O conceito surgiu no Canadá no início da década de 1990 para solucionar conflitos no gerenciamento dos recursos florestais. A Paisagem Modelo segue seis princípios básicos, mas sua elaboração é flexível de acordo com o contexto das áreas de implementação. Hoje, existem 60 Paisagens Modelo no mundo e seis estão em solo brasileiro, sendo que uma está localizada no Pantanal.  

Me recordo que a primeira viagem que fiz enquanto parte da comunicação da Ecoa foi para uma ação relacionada com Paisagens Modelo. Foi o momento de entender a complexibilidade da pauta ambiental. Durante a viagem pude entender que não é possível tratar da conservação ambiental sem considerar as pessoas que vivem no ambiente, sem considerar questões sociais e também econômicas. Foi um estourar de bolha tão grande que influenciou no tipo de profissional que estava construindo e marcou meu projeto de conclusão de curso. Quando passei a integrar a comunicação do projeto Restauracción, que ocorre na Paisagem Modelo Pantanal, pude aprofundar os conhecimentos sobre o conceito por trás da Paisagem Modelo e considero que o aspecto primordial e caracterizador do que é uma Paisagem Modelo é a abertura para diálogo.  

O diálogo é feito de forma constante dentro da Paisagem Modelo Pantanal. Exemplo disso são as entrevistas em campo para auxiliar na determinação de áreas prioritárias de restauração. Pesquisadores poderiam observar a fauna e flora da região e a partir disso estabelecer essas áreas, mas isso não basta. É preciso considerar como as pessoas na região reagem à iniciativa, pois se os grupos envolvidos não consideram a restauração necessária, e não se envolvem nas ações, então o projeto pode não vingar.  

Heitor Verjas, consultor do projeto Restauracción, realizou entrevistas com os grupos sociais que vivem na Paisagem Modelo Pantanal para entender a relação com o ambiente e assim auxiliar na determinação de áreas de restauração

Leia também: Paisagem Modelo Pantanal moradores auxiliam na identificação de áreas para restauração

O senhor Rubens Alonso e Joaquim da Silva exemplificam a importância de ouvir constantemente os grupos envolvidos na Paisagem. Ambos são assentados na região de Corumbá (MS), o senhor Rubens mora no Assentamento 72 e o senhor Joaquim no Assentamento Urucum. Ambos os assentados consideram a terra importante, assim como a conservação desta.  Coincidentemente suas palavras foram as mesmas ao tratar sobre a terra, demonstrando assim a forte relação de respeito que ali existe com o ambiente.  

“A terra pra mim é tudo” –  Joaquim (lavrador e morador do Assentamento Urucum) 

“A terra é tudo. Sem a terra acho que a gente não vive” – Rubens Alonso (agricultor familiar e morador do Assentamento 72) 

 

Veja também: Galeria Paisagem Modelo Pantanal

Projeto Restauracción 

Dentro da Paisagem Modelo Pantanal está em andamento o projeto Restauracción, que possui o intuito de consolidar a primeira Paisagem Modelo do Pantanal, fortalecer seu sistema de governança e intensificar as atividades de restauração na Área de Preservação Ambiental Baía Negra, em Ladário (MS), que acontecem no âmbito do projeto ‘Restauração estratégica e participativa no Pantanal’ 

A iniciativa é executada pela Ecoa com apoio do Serviço Florestal Canadense e suas ações acontecem ao longo do primeiro semestre de 2023. As atividades do projeto também são realizadas com a participação de pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), Smithsonian Conservation Biology Institute e Imperial College London.   

 

Raquel Alves

Jornalista do núcleo de comunicação da Ecoa e comunicadora do projeto restauracción

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