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Qual a situação da Argentina na crise climática global?

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A Patagônia, no sul da Argentina, registra maior aumento de temperatura no país (Foto: Ricardo Jana/Reuters)

As mudanças climáticas extremas geram prejuízos sociais, econômicos e ambientais. É possível perceber tais repercussões em países da América do Sul como Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Bolívia e Chile. Tal tema inspirou a publicação ‘Eventos climáticos extremos: impactos e danos econômicos nos países da bacia do Rio da Prata e no Chile’, escrita por Alcides Faria, diretor executivo da Ecoa. Para ler a publicação, clique aqui.

Matéria feita por Pablo Esteban, Página 12

Esta quarta-feira, após a apresentação do relatório “Situação do clima global em 2021”, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), António Guterres, secretário-geral da ONU, apontou “o fracasso da humanidade em enfrentar as perturbações climáticas” e que “a catástrofe climática está se aproximando”.

Para especialistas, triplicar o investimento em energia verde (equivalente a quatro bilhões de dólares por ano) é uma das opções propostas pelo órgão internacional para reduzir os níveis de gases de efeito estufa na atmosfera. 

Embora o aquecimento global seja um fenômeno que envolve todas as nações do planeta, cada Estado tem suas particularidades. Qual é a situação na Argentina? Quais ações de mitigação aplica atualmente? 
 
Em sintonia com o problema a nível global, Inés Camilloni, doutora em Ciências Atmosféricas e referência no assunto, comenta que o cenário nacional tem registros de preocupação semelhantes aos divulgados pela OMM. Nesta linha, utiliza dados reportados em 2021 pelo Serviço Nacional de Meteorologia para lançar algumas pistas sobre a situação local. “Desde 1961, quando as medições começaram a ser feitas no país e passamos a ter informações sistematizadas das estações meteorológicas, o ano passado foi mais quente que o normal. Aliás, 2021 foi o 5º ano mais quente em sessenta anos”, sublinha o investigador do Conicet do Centro de Investigação do Mar e da Atmosfera. 

Mudanças no clima favorecem propagação de incêndios (Foto: Reuters)

As regiões da Argentina mais afetadas

Em seguida, Camilloni continua com a descrição do que acontece em cada região. “Entre as áreas que emitiram algum registro está a Patagônia, que apresentou números históricos. Entre janeiro e março enfrentou calor extremo; Foi 1,1 graus mais quente que o valor médio, quebrando o recorde histórico de calor anual”.

O recorde anterior havia sido registrado em 1998 com 0,8 graus e em 2021 foi de 1,1 graus, o que, em média, foi vários décimos mais quente. O sul da Argentina é a área que mais aqueceu, embora –de acordo com o especialista– não haja “uma razão inequívoca” que explique a situação.

“Nas projeções para o final do século, em um cenário complexo de emissões de gases de efeito estufa, uma das regiões do planeta que registrará os maiores aumentos de temperatura será o noroeste da Argentina. Aí os cálculos dão o aumento máximo: entre 4 e 5 graus de aumento médio para 2100”, destaca Camilloni. E finaliza seu diagnóstico local: “Por um lado temos temperaturas acima do normal e, ao mesmo tempo, as chuvas estão abaixo dos parâmetros. Algumas latitudes foram particularmente afetadas, como a Bacia do Paraná e a Mesopotâmia, que enfrentaram uma retração histórica. A última seca dessa magnitude foi em 1944”. 

 Compromissos e desejos 

O trabalho da OMM também indica que a concentração de gases de efeito estufa atingiu um novo máximo mundial em 2020, com 413,2 partes de dióxido de carbono (CO2) por milhão (ppm) no mundo, ou seja, 149% acima do nível industrial. Da mesma forma, devido à aceleração da perda de massa de gelo, o nível médio do mar em escala global atingiu um novo máximo em 2021 (aumentou em média 4,5 milímetros por ano durante o período 2013-2021). Oceanos que se aquecem e que, em função da absorção de uma maior quantidade de gases de efeito estufa, tornam-se mais ácidos; fenômeno que se traduz em uma ameaça à biodiversidade e à segurança alimentar.

Neste quadro, é essencial rever os compromissos de cada país. “A Argentina faz parte da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e assinou o Acordo de Paris, que entrou em vigor em 2016. Adere à necessidade de limitar as emissões de gases e se comprometeu a apresentar contribuições determinadas nacionalmente, ou seja, um projeto específico para definir de que forma específica irá reduzir suas emissões”, diz o pesquisador.

A proposta apresentada pela Argentina, juntamente com as outras, revela-se hoje insuficiente para combater o aquecimento global e não ultrapassar o aumento médio de 1,5 graus em relação à era pré-industrial. “A proposta local, mas também as demais, deveriam ser mais ambiciosas. Desde então, ajustes foram feitos, mas o grande desafio virá na Cúpula do Egito (COP27), que será realizada em novembro deste ano”, destaca. Nesse caso mencionado por Camilloni, os Estados devem prestar contas do que vêm fazendo em termos de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas nos últimos cinco anos. 

O maior desafio 

Atualmente, a humanidade vive o Antropoceno: a época geológica em que os seres humanos causam um impacto significativo nos ecossistemas terrestres. A partir daqui, embora alguns chefes de Estado – como foi o caso do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – tentem negá-lo, as ações das pessoas contribuem para o aquecimento da Terra.

As evidências científicas reunidas pelas centenas de pesquisadores que fazem parte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) são impressionantes. Com a pandemia e a guerra na Ucrânia, as mudanças climáticas como problema estrutural foram novamente relegadas da esfera pública. É fundamental, neste sentido, dar-lhe a sua justa importância. Como menciona Petteri Taalas, chefe da OMM, é nada menos que “o maior desafio da humanidade”. 

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