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A cachoeira ameaçada pela destruição das represas

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Cachoeira Água Branca (Foto: Silas Ismael)

É facilmente perceptível que existe uma grande queda d’água nas redondezas. A centenas de metros, o som da água caindo preenche o silêncio característico do cotidiano no campo. Trata-se da Água Branca, considerada a segunda maior cachoeira de queda livre do Mato Grosso do Sul, localizada entre os municípios de Pedro Gomes e Sonora.  

Um paredão de rochas avermelhadas se ergue em meio ao Cerrado. É de lá de cima, de uma altura de mais de 80 metros, que a água despenca para seguir seu caminho natural. Cercado por fazendas e plantações de soja, este refúgio da natureza está ameaçado pela construção de uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH) metros antes da queda d’água. 

O processo para construção da hidrelétrica Cipó no local é acompanhado pelas organizações que formam a Rede Pantanal desde 2018. Mais recentemente a Ecoa desenvolveu estudos e análises sobre o empreendimento em si e realizou viagem de campo até o local para avaliar in loco os possíveis danos ambientais, sociais e econômicos na região que será afetada. 

foto: Silas Ismael

O quebrar da cachoeira 

Foto: Silas Ismael

A licença prévia para construção da PCH foi aprovada em 2021 e tem validade pelos próximos quatro anos. Para gerar apenas 2,9 MW de energia, a destruição da cachoeira seria inevitável. Segundo parecer do Instituto de Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul (Imasul), o barramento deve desviar 80% do fluxo de água da cachoeira, o que causaria impactos irreversíveis para o local.

Natural de Minas Gerais, há 30 anos Gilberto Paixão fez da região sua morada. Privilégio é a palavra que escolhe para sintetizar como é morar próximo à cachoeira. “Todo dia acordo e deito ouvindo o barulho da água caindo, o quebrar da cachoeira. Se ela desaparecer, acaba todo esse encanto da natureza. Sou contra construir qualquer coisa para acabar com essa beleza”. 

Ao longo dos anos em que vive no local, Gilberto pôde acompanhar as mudanças decorrentes da degradação da natureza. “Há vinte anos atrás eu entrava nesse rio com as mãos para cima, ele me cobria. Hoje está batendo no meu calcanhar porque assoreou tudo. O plantio desnaturado da soja e desmatamento estão sendo grande demais por aqui”. 

Foto: Silas Ismael

Sargento do Corpo de Bombeiros aposentado, Divino de Araújo é outro morador das redondezas que se mostra contrário à construção da represa.Vim para essa área há dez anos e me deparei com essa linda cachoeira. É um absurdo quererem destruir uma beleza dessa sendo que já temos energia aqui na região”.  

O morador reforça a ligação da população de Pedro Gomes com o local. “Nós aqui da região precisamos dessa cachoeira, quem vem para a cidade quer conhecer, é ponto turístico. Se diminui 80% do volume, o que nós vamos ter de cachoeira? Vai ser um filete de água. Não podemos deixar isso acontecer”. 

Foto: Alíria Aristides

Uma trilha sinuosa   

A Água Branca pode ser acessada por uma longa trilha cercada por mata. Ao longo do caminho, é perceptível a presença da fauna que encontra ali um refúgio ainda seguro. A região está identificada como ponto de reprodução de aves migratórias, o que é um demonstrativo da sua grande importância ecológica.   

Aos pés da cachoeira, a força com que a água bate nas rochas levanta uma nuvem de gotículas de água que molha a vegetação e quem se aventura a chegar perto do local.  

A via de acesso ao topo do paredão é íngreme. O caminho segue em meio a riachos e pontes estreitas onde o equilíbrio precisa ser exercitado. Ao redor, a abundância de água é demonstrada pela presença constante de nascentes. Antes da grande cachoeira, várias outras cachoeiras menores, de água cristalina, aparecem por entre as árvores.  Depois de quase trinta minutos de subida, o topo é enfim alcançado. Dali, o cenário é de tirar o fôlego. 

Foto: Alíria Aristides

Memórias 

Há 36 anos, Nelson e Edir Martins são proprietários da fazenda Dallas, localizada na porção abaixo do paredão que forma a queda d’água. Da casa, é possível ver a cachoeira ao longe e ouvir o potente som decorrente da sua queda.  

As memórias da família estão marcadas pela presença constante da cachoeira. É com afeto e nostalgia que Edir relembra momentos vividos no local. “Temos um amor muito grande por esse lugar, vivemos muitas coisas boas. A gente costumava fazer muitos passeios com as crianças, com as pessoas que vinham nos visitar. Estamos acostumados a ter a presença da cachoeira nas nossas vidas, é muito triste pensar na depredação dessa maravilha de lugar”. 

A vista que Edir tem da cachoeira (Foto: Alíria Aristides)

Ao saber da possibilidade de destruição da queda d’água, Nelson afirma que ficou assustado. “Estão pensando só no fator econômico. É lamentável o que querem fazer para beneficiar duas, três pessoas, em detrimento do futuro turístico que esse local poderia ter. O pior é que o município se vangloria dessa cachoeira e está a favor de construir a usina”. 

Com a construção da represa, o potencial de turismo da cachoeira deve ser impactado antes mesmo de ser desenvolvido na região.  De acordo com o Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia Hidrográfica do Rio Taquari (Cointa), a região tem “grande potencial para alavancar o turismo na região e a instalação da barragem da hidrelétrica Cipó tornará inviável tal possibilidade”.   

Trilha (Foto: Silas Ismael)

Contradições  

O processo de licenciamento da represa no local é marcado por uma série de inconsistências e contradições. Entre os problemas identificados no processo, estão questões como diferentes informações cedidas pela empresa, como a quantidade de energia gerada pelo empreendimento.  

Além disso, a própria empresa reconhece os danos que serão causados ao local e chega a propor medidas excêntricas como a criação de uma cachoeira falsa com um “difusor” para espalhar água. 

Recentemente, a Ecoa e a Rede Pantanal enviaram um manifesto para o Ministério Público Estadual (MPE) com intuito de denunciar o problema e reforçar a “certeza de evidentes danos ambientais” no local.  

A ameaça das represas 

As águas que serão retidas pela represa Cipó drenam para a Bacia Hidrográfica Piquiri/Correntes, uma das principais abastecedoras do Pantanal e, portanto, parte da Bacia do Alto Paraguai (BAP).    

Ao todo, são 180 represas na Bacia do Alto Paraguai (BAP), dentre as construídas e previstas. Esse grande número de empreendimentos hidrelétricos chamou a atenção de diversas organizações e para entender melhor os impactos deste grande número de represas na bacia, a Agência Nacional de Águas contratou a Fundação Eliseu Alves, que junto com mais de 100 especialistas na área elaboraram os chamados “Estudos de Avaliação dos efeitos da implantação de empreendimentos hidrelétricos na Bacia do Alto Paraguai”.  

Alíria Aristides

Jornalista no núcleo de comunicação da Ecoa

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