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Abelhas nativas no Pantanal

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Abelha Canudo, umas das espécies encontradas no Pantanal (Foto: Iasmim Amiden)

As abelhas nativas já viviam no Brasil muito antes das espécies estrangeiras aportarem por aqui. O clima, características dos biomas e abundância de alimentos explica a presença de cerca de 2.500 espécies de abelhas nativas no Brasil.  

No Pantanal, o cenário não é diferente. A diversidade de melíponas, como também são conhecidas, também é observada na região. 

Essas espécies são fundamentais para a polinização das plantas, manutenção do equilíbrio dos ecossistemas naturais e beneficiam também diversas culturas agrícolas, favorecendo a segurança alimentar humana e de outras espécies.  

Apesar da sua importância, as espécies nativas sofrem com diversas ameaças, como o desmatamento, incêndios e o uso extensivo de agrotóxicos. Os pesticidas usados em lavouras são uma das mais graves ameaçadas para as abelhas. Atualmente, geram o fenômeno global conhecido como “Colapso das colmeias”. 

São poucos os locais no mundo onde o mel pode ser considerado puro, sem contaminação dos agrotóxicos. E é justamente no Pantanal, em regiões isoladas como a Serra do Amolar, que as abelhas encontram verdadeiros “oásis” livre da ameaça dos pesticidas.  

Em amostras de mel coletados nessas regiões mais isoladas e enviadas para análise na Universidade de Neuchâtel, na Suíça, não foram identificados traços de agrotóxicos.  

Produção deste material contou com apoio de Cleberson Bervian, biólogo e especialista em apicultura (Foto: Victor Hugo Sanches)

A proteção dos polinizadores nessas regiões do Pantanal é o principal objetivo do Programa Oásis, da Ecoa. Para isso, são promovidas ações como campanhas educacionais sobre a importância dessas espécies e o incentivo ao manejo de abelhas e produção de mel, atividade que gera renda para famílias pantaneiras.  

Para produção deste material, tanto do texto quanto das imagens selecionadas, contamos com apoio fundamental de Cleberson Bervian, biólogo, especialista em apicultura e proprietário da empresa de consultoria apizzzapicultura. O apicultor é também consultor técnico no Programa Oásis e participa da formação de famílias para a atividade.

Conheça as principais espécies de abelhas nativas encontradas no Pantanal! 

 

Mandaçaia do Pantanal (Melipona orbignyi) 

Foto: Marcos Wolf

A mandaçaia pantaneira é uma abelha social que costuma fazer seus ninhos em árvores ocas. Seus ninhos costumam ser grandes, com entrada feita de barro, e conter muitos litros de mel.  

Seu nome é originado de uma palavra indígena que significa “vigia bonito”. O título tem ligação com um comportamento da espécie ligado ao seu ninho: há sempre uma guardiã que cuida da entrada da colmeia e protege as demais de visitas indesejadas.  

A Mandaçaia é uma abelha mansa, mas quando se sente ameaçada, costuma repelir o intruso se movimentando ao seu redor e dando mordiscadas com suas fortes mandíbulas.

A espécie é um dos símbolos do Programa Oásis da Ecoa.  

Mandaçaia do Pantanal (Foto: Cleberson Bervian)

 

Mandaguari (Scaptotrigona postica) 

Foto: Reprodução

As abelhas mandaguari são consideradas bastante defensivas. Embora não tenha ferrão, elas utilizam outros mecanismos para lidar com intrusos. Caso alguém chegue muito perto da sua colmeia, as mandaguari a protegem se enroscando nos pelos e cabelos e penetrando em orifícios como ouvido e nariz.  

As colmeias de abelhas Mandaguari são encontradas em ocos de árvores. A entrada do ninho é feita de cerume mais claro em forma de funil.  Seus enxames costumam ser muito populosos, podendo chegar a 50 mil indivíduos por colmeia.

É considerada excelente polinizadora justamente por sua alta população. Além disso, produz própolis de ótima qualidade e grandes quantidades de mel que possui um sabor suave. Por isso, a Mandaguari é uma das espécies de abelhas nativas utilizadas na meliponicultura.  

Mandaguari (foto: Celso Modesto Jr)

 

Arapuá (Trigona spinipes) 

Foto: Cristiano Menezes/ IBAMA

A arapuá é uma abelha social sem ferrão de coloração negra e reluzente. Seu nome deriva de palavra em tupi que significa “mel redondo”, em referência ao formato da sua colmeia. Pode ser encontrada em quase todas as regiões do Brasil. 

A espécie pode ser agressiva em algumas ocasiões. Em busca por alimento, pode invadir a colmeia de outras abelhas, o que ocasiona muitas mortes. Além disso, também ataca quando se sentem ameaçadas. Por não ter ferrão, sua arma de defesa é grudar e mordiscar o invasor.  

Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) constatou que as arapuás possuem grande capacidade de se dispersarem por longas distâncias e colonizar habitats degradados. Assim, podem sobreviver em ambientes fortemente alterados e atuar como um polinizador “de resgate”, compensando o declínio de outros polinizadores nativos. 

Arapuá (Foto: Abelhas Jataí)

 

Cupira (Partamona cupira) 

Foto: Meliponário Rei da Mandaçaia

A Cupira é mais uma das espécies de abelhas nativas presentes no Pantanal. A espécie recebe este nome por construir seu ninho em simbiose com cupinzeiros: enquanto os cupins oferecem moradia e condições favoráveis para as abelhas, as mesmas fornecem defesa.  

Elas costumam atacar quem se aproxima da moradia compartilhada e, por ser uma espécie sem ferrão, se defendem com mordidas.  

As cupiras possuem preferência por cupinzeiros povoados. É provável que isso aconteça pela atividade dos cupins na manutenção da sua habitação. Cupinzeiros abandonados são facilmente destruídos por intempéries como chuva e vento, o que é prejudicial para as abelhas. 

Segundo registros, as cupiras de chão utilizam cavidades naturais do próprio cupinzeiro para entrar e se instalar no local.  

Cupiras (Foto: Projeto Abelhas Urbanas Goiânia)

 

Feiticeira (Trigona recursa) 

Foto: Cleberson Bervian

Medindo cerca de 8mm, a Feiticeira recebe este nome por uma característica peculiar do mel que produz: há relatos que o mesmo possa gerar efeitos alucinógenos em que o consome.

O mel também é considerado inapropriado para consumo pelos hábitos “poucos higiênicos” da espécie, que costuma visitar animais mortos e fezes. Tais materiais são utilizados pela feiticeira para construir a entrada do seu ninho e afastar, pelo cheiro desagradável, visitas indesejadas.  

São consideradas abelhas mansas, o que destoa de outras espécies de abelhas sem ferrão. Mas, em caso de ameaça extrema, fazem uso de suas mandíbulas para se defender. Além disso, também costumam grudar nos invasores. 

Seus ninhos são subterrâneos, construídos em meio à raízes de árvores grandes, em contato com o solo. A feiticeira ainda é considerada uma abelha pouco estudada e manejada.  

Feiticeira (Foto: Cleberson Bervian)

 

Uruçu amarela (Melipona rufiventris) 

Foto: Acriapa

A Uruçu amarela vive em colônias grandes que podem chegar a uma população de 5 mil abelhas. Como o nome já diz, a abelha possui o corpo coberto de pelos amarelados, com tegumento variando de preto a ferrugem. 

Esta espécie prefere fazer seus ninhos em ocos de árvores. A entrada do ninho é localizada no centro de raias convergentes de barro e permite que apenas uma abelha entre ou saia de cada vez.

Assim como outras já citadas, demonstra agressividade somente quando se sente ameaçada. Seu comportamento defensivo é beliscar a pele de quem se aproxima demais do seu ninho.  

A uruçu amarela é uma grande produtora de mel. Em locais com boa florada, um enxame podem chegar a produzir 10 kg de mel por ano.

Uruçú Amarela (Foto: Cleberson Bervian)

 

Abelha Canudo  (Scaptotrigona depilis)

Foto: Eden Federolf

Esta espécie de abelha nativa e sem ferrão recebe o nome popular de “canudo” pela entrada de sua colmeia, que possui formato tubular. Seus ninhos costumam ser encontrados em ocos de árvores.

A abelha canudo é considerada bastante defensiva. Em ambientes urbanos, onde consegue se adaptar com sucesso, pode gerar incômodo por atacar quem se aproxima da sua colmeia. 

Um estudo identificou que as larvas da abelha canudo dependem da interação entre três diferentes espécies de fungo para completar seu desenvolvimento e chegar à fase adulta. Diante da descoberta, o uso de agrotóxicos se mostra uma ameaça ainda mais grave para a espécie, já que muitas dessas substâncias tóxicas possuem ação antifúngica.

Abelha Canudo, umas das espécies encontradas no Pantanal (Foto: Iasmim Amiden)

 

Olho de vidro (Trigona chanchamayoensis) 

Foto: Cleberson Bervian

A Trigona pallens é uma espécie de abelha considerada dócil, com grande tolerância à presença de estranhos próxima ao seu ninho.

Os enxames das Olho de vidro costumam ser populosos e construir ninhos subterrâneos, enterrados no solo.

A espécie não costuma ser utilizada para fins comerciais, já que produz mel e própolis em pequenas quantidades. Entretanto, é excelente polinizadora, característica que desperta interesse em agricultores que criam enxames para beneficiar plantações.

 

Olho de vidro (Foto: Cleberson Bervian)

Mirim (Plebeia droryana) 

Foto: Cleberson Bervian

Rústica e resistente, a Plebeia droryana é uma abelha social. Como o próprio nome já diz, as Mirim se caracterizam pelas dimensões corporais, sendo considerada uma das menores abelhas sem ferrão. Geralmente possuem menos de 4mm, às vezes sendo confundidas com mosquitos.  

De coloração negra pouco reluzente, a pequena abelha costuma fazer os seus ninhos em ocos de árvores ou ambientes rochosos, incluindo locais urbanos, onde já pode ser encontrada nidificando naturalmente.

Sua colmeia possui um tubo fino de cera amarela na entrada que reduz o número de indivíduos que entram de cada vez.  

A abelha-mirim é considerada extremamente mansa. Alguns meliponicultores as cultivam em pomares e até sacadas de apartamento, já que se adaptam muito bem ao ambiente das cidades.  

Seu mel é muito nobre e custa aproximadamente cinco vezes que o mel das abelhas afro-brasileiras com ferrão. Produz um mel de sabor ácido e em relativamente pouca quantidade.  

Abelhas-Mirim (Foto: Cleberson Bervian)

 

Lambe-olhos (Leurotrigona muelleri) 

Foto: AME – Minas

abelha Lambe-Olhos recebe este nome pelo seu modo de defesa peculiar: ela ataca os olhos dos invasores e lambe a secreção que umedece o globo ocular. 

A espécie nativa e sem ferrão é considerada a menor abelha do mundo, com aproximadamente 1,5 milímetros. Possui a coloração do corpo negra, com asas maiores do que sua extensão corporal. 

Seu enxame é, na maioria das vezes, mediano e pequeno. Pelo seu tamanho, tanto dos indivíduos quanto dos enxames, a produção de mel e o estoque de pólen são processos muito lentos. 

A entrada da colônia da Leurotrigona muelleri é um pequeno tubo de cor escura, feito de cerúmen. A defesa do ninho costuma ser realizada por 3 a 4 operárias-guardas na abertura do tubo de entrada da colônia. 

Lambe-olhos (Foto: Cristiano Menezes)

 

Boca-de-sapo (Partamona helleri) 

Foto: Nelson Wisnik

A Partamona helleri é popularmente conhecida como boca-de-sapo devido à entrada do seu ninho, que se assemelha a uma grande boca de sapo. Para construir a entrada, a abelha utiliza barro com própolis. Além disso, a abelha pode usar também excremento de animais.  

Seus ninhos costumam ser construídos no alto, apoiado em locais como oco de árvores, vaso de plantas, postes e forro de casas.  

Esta espécie é considerada bastante agressiva. Ao se sentir ameaçada, enrosca nos cabelos e pêlos da vítima, além de mordiscar a pele com suas mandíbulas. A boca-de-sapo costuma coletar pólen em grande quantidade, visitando muitas espécies de plantas. Por isso, é um inseto muito importante para a polinização das árvores. 

O mel da Boca-de-Sapo é aguado, mas muito saboroso. No entanto, sua produção é mínima.

Boca-de-sapo (Foto: Bruno Azevedo)

 

 

Alíria Aristides

Jornalista no núcleo de comunicação da Ecoa

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