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Restauração ecológica com participação comunitária no Pantanal

8 minutos de leitura
Monitoramento participativo (Foto: Victor Hugo Sanches)

Por Felipe Luis Gomes Borges, Thiago Miguel Oliveira Saiefert, Gabriel Pesqueira da Luz, Carolina Ferreira Pauliquevis, André Luiz Siqueira, Letícia Couto Garcia

Artigo publicado na sétima edição da revista Ciência Pantanal. Para acessar a publicação completa, clique aqui

Nos três últimos anos, o Pantanal foi destaque na mídia nacional e mundial devido aos incêndios de grandes proporções que atingiram a região, causando imensos estragos e prejuízos. Porém, outros impactos pontuais relevantes e menos divulgados ameaçam este bioma e demandam atenção.

Um exemplo bem ilustrativo vem da Área de Proteção Ambiental Baía Negra, situada no município de Ladário (MS), onde o projeto Restauração Estratégica e Participativa no Pantanal: Área de Proteção Ambiental (APA) Baía Negra promove ações de combate a processos de degradação ambiental em várias frentes de atuação. Com o envolvimento dos povos e comunidades tradicionais, os pesquisadores buscam caminhos integrados para lidar com tais desafios.

Foto: Victor Hugo Sanches

O intuito do projeto é restaurar, ao longo de 24 meses, uma área de 51 hectares da APA que vem sofrendo processos degenerativos por causas variadas. Em 47 hectares ocorre a leucena (Leucaena leucocephala), uma planta invasora altamente prejudicial, por impedir o processo de sucessão ecológica de espécies nativas e seus ciclos naturais. Este vegetal apresenta crescimento acelerado, alta produção de sementes e resistência à seca, sendo uma espécie oportunista, que se beneficia ocupando áreas previamente degradadas pela ação humana.

Os demais 4 hectares foram explorados por atividades de mineração, encontrando-se em avançado estado de degradação e com significativo acúmulo de lixo. Criada em 2010 e com área de aproximadamente 6.000 hectares, a APA Baía Negra é uma unidade de conservação de uso sustentável. Isto significa que ela é oficialmente assegurada pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), enquadrando-se na categoria de unidades de conservação de uso sustentável, sendo permitida a presença de populações humanas e a exploração racional de recursos naturais, diferente de outras categorias mais restritivas, como os parques nacionais ou as reservas biológicas.

A APA Baía Negra apresenta grande diversidade de fauna e flora, com distribuição condicionada pela presença de diferentes ecossistemas. Ocorrem desde áreas úmidas em grandes baías (como a Negra e a Arrozal), como também áreas permanentemente secas, nos fragmentos de floresta estacional. A APA engloba ainda um dos únicos remanescentes protegidos do chamado bosque seco Chiquitano, uma formação florestal característica do centro-leste da Bolívia.

Os moradores locais sobrevivem da pesca, extrativismo vegetal sustentável, turismo e agricultura de subsistência, sendo profundos conhecedores da região. Desta forma, seu envolvimento no projeto tem grande importância para obtenção dos resultados desejados.

As ações incluem limpeza, transposição de solo, adubação verde e plantio de mudas nativas nos 4 hectares degradados pela extração de minério e deposição de lixo, com o objetivo de criar condições propícias à recolonização pela fauna e flora nativas. A maior área é dominada pela leucena, onde as intervenções ocorrem pelo manejo manual sem uso de herbicidas. São executadas podas mensais, com posterior semeadura de feijão-guandu (adubação verde) e plantio de mudas nativas, a fim de criar um ambiente desfavorável às invasoras e proteger as duas nascentes existentes no local.

Simultaneamente, serão implantados sistemas agroflorestais adaptados às necessidades da comunidade local e que promovam a biodiversidade nativa.

Os pesquisadores buscam ainda uma maior compreensão sobre o avanço da leucena no Pantanal, procurando compreender se há conexão com a diminuição das enchentes e os grandes eventos de incêndios que têm ocorrido neste bioma.

Com o intuito de elucidar essa e outras perguntas, visando formular estratégias futuras de controle e prevenção, o projeto está apoiando estudos realizados pelo grupo de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD) Fogo Pantanal, em conjunto com o Laboratório Ecologia da Intervenção da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (LEI – UFMS).

Todas as atividades são desenvolvidas de maneira participativa com a comunidade. Este modo de atuação busca promover os conhecimentos tradicionais locais aliados aos métodos científicos, abordando os diferentes eixos da sustentabilidade: ambiental, social e econômico. Ao propiciar benefícios ambientais, conhecimento científico por meio das pesquisas e melhoria na qualidade de vida através da geração de renda e troca de saberes, o projeto enfrenta de maneira integrada os desafios que ameaçam o Pantanal.

O monitoramento das ações segue os preceitos da ciência cidadã. O software utilizado, denominado Sapelli, é gratuito e de código aberto, podendo ser usado no ordenamento territorial, resolução de conflitos, uso e ocupação dos recursos e restauração ecológica. No projeto, o Sapelli foi instalado em celulares utilizados pelos monitores da comunidade local, com objetivo de mapear e caracterizar aspectos como a presença de espécies exóticas, a sucessão ecológica e o fogo.

As iniciativas estão em consonância com uma das Metas de Aichi, conjunto de proposições integrantes do Plano Estratégico de Biodiversidade para o período de 2011 a 2020, aprovado durante a COP-10 no Japão. Contempla ainda a convenção Ramsar e o programa MAB (programa homem e a biosfera), da reserva da Biosfera.

O projeto é coordenado pela ECOA – Ecologia e Ação em parceria com o LEI – UFMS, sob coordenação técnica do Ministério do Meio Ambiente e financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), cuja agência implementadora é o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tendo o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) como e executor financeiro.

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